Salve-Salve, Simpatia!

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Esforços e talentos a parte, se fosse pra dividir, com base no que é natural, acho que ficava mais ou menos assim: cronista? Um passo atrás. Isso. Vai apertando que cabe.  Poeta? Também é fácil, viu? Ponte aérea, de meia em meia hora. Depois, é só se deixar arremessar no colo moreno da Guanabara. Sob as bênçãos do santo papa (Ah, esqueci, ele já foi, né? Esquente não, o Redentor continua lá, braços abertos e a esperar, igualzinho a canção), em plena Lapa carioca.

Esqueçam os bairrismos. Falo em nome da arte. Em prol de nosso rico acervo etílico, musical e literário. E explico o porquê. Experimentem mover Vinícius e Jobim do Leblon ao Itaim, só pra ver a encrenca que dá. Se a Helô Pinheiro morasse na Água Funda ou Campo Belo, Garota de Ipanema nem existiria, ou teria, no mínimo, um cenário bem menos atraente. Se bem que acredite, piamente, que toda paulista traga em si uma diva. Com direito a hino e ode. Drum and bossa e rock n roll.

E daí se não temos praias? Temos shoppings. Ondas de preço e maré de azar. Se bem que loja lotada nunca rendeu soneto. Nem sambinha de uma nota só. Quando muito, ganha jingle. Coisa difícil de cantarolar baixinho. Banquinho e violão, então, nem pensar.

E daí se não temos sol em abundância? Tem feriado que até rola. É quando migramos de um pálido-azedo-leitoso ao melhor hot-sauce- arrabiata. Ardendo horrores e em tiras. Num piscar repuxado de olhos. Afinal, quem tem tempo pro gradual? Nós? Com certeza, não.

Estamos sempre correndo. Não temos oito. Só oitenta. Sendo assim, esqueça o dourado uniforme e dê um grande viva ao inventor do after sun: refresca que é uma beleza! Pena que desbota. E mancha. Ficando pior do que era. Descamando feito um mandiopan (gente, lembram do mandiopan? Essa eu desenterrei, né?).

Mas valeu, serão essas as palavras da guerreira. Que enverga, mas não entrega. Ainda mais depois de lombar tanta estrada. Com filho atrás brigando, cantando e golfando. Sem falar no resto todo. Rádio que não pega. Fina de caminhão. Carro que não anda. Marido que reclama. E haja paciência. Mas somos positivas (areia não rala, esfolia. Rinite não mata, dá resistência. Alergia a picada é transcendental. Quase um rito de passagem para a vida adulta). Então, tá. Que seja.

E pra quem ainda se impressiona com o capitão Nascimento, devia estagiar, só por uns dias, em um desses espigões da Berrini. Daqueles que nunca apagam. Horário de Brasília? Bobagem. E daí que já passa das duas da madruga? Com certeza tem gente trabalhando agora. Aqui e em Tóquio.

Podemos não ser tão lindas, nem tão cheias de graça. Mas temos cá nosso charme. Só que aqui, praticidade vem primeiro. Sendo assim, esqueça os cachos (alisado é melhor. Atende tudo. Reunião de última hora, velório ou despedida de solteiro) e dê adeus às blusinhas frufru (minha sala só tem macho e bate fácil menos cinco Fahrenheit).

Se quiser é assim. Um que-te-pego-que-te-agarro descomunal. E trate de arregaçar bem as mangas e correr. Sem essa de doce balanço a caminho do mar. Já nascemos atrasadas. Com saldo de horas negativo.

Mas e o ziriguidum? Como é que fica? Esquente não. Pois o samba que nos falta aos pés, explode o peito em plena apoteose. Repondo em garra, e força, todo esse balanceio que ficou pra trás. Compensando em atitude, o pouco jeito que temos quando o assunto é requebrado. Portanto, não se enganem: se me virem gingando por aí, desconfiem. De duas, uma: distensão muscular ou salto que coxeia.

Somos assim. Sem curvas. Sem tempo. Sem almoço. E sem descanso. Gazelas com angina. Que, nem por isso, aliviam a caneleira. Pelo contrário, aumentam a carga. Dobram. Quadriplicam. Pensando nos milhões de quilos por perder. Mesmo que magras. Retas e longas. Como uma estrada rumo ao interior.  

E é esse mulherão, dotado de métrica própria, quem vai quebrando miudinho. Faltou molejo? Sobrou coragem. É ela quem conduz. Firme e bonita. Mundão afora. Deixando muito pé de valsa a ver navios. Perdido. Sem saber por onde começar.

E daí se nosso loiro não é natural (nem tão assentado quanto gostaríamos)? Também não temos corpo de sereia, é melhor admitir. Mas combinamos uma echarpe longa com um trench coat, de fazer corar de inveja a francesa mais bem colocada! Afora a simpatia que nunca dorme. E as respostas na ponta da língua. Pra tudo. Desembainhadas e doidinhas pra acontecer. Touché!

Multifuncionais. Pau pra toda obra. Assoberbadas. Viajadas. Complexas. E transversais. Embrenhadas em uma busca eterna pelo EU interior, mesmo quando o EU exterior não anda lá aquelas coisas. Somos intensas. Doces. E ardidas. Que nem pimenta no azeite. Então não mexa com a moça (ou melhor, mexa. Muito. E com vontade. Mas vai com jeito, se não) …

Alguém que não espera. Que faz. Que procura. Um emprego. Um aumento. Um amor. Um companheiro. Um alguém pra andar junto. Passos firmes e largos. Que nos preste atenção. Aos mínimos detalhes. E nos faça a devida deferência. Um poetinha meio à moda. Bem ao ponto. E na medida. Completamente fora de esquadro. Desses incorrigíveis. Capaz de amar incondicionalmente. Que nos decifre e devore. Não necessariamente nessa ordem. Amém.

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