A Consulta

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_Entre. Só um minutinho, por favor_ nem levantou os olhos de suas fichas e receituários _Pronto. Me diga. O que traz o senhor aqui?

_Sabe o que é doutora, tinha acabado todo o refrigerante diet, então…

Ah, não! Outro daqueles velhinhos que vem ao consultório só para bater papo. Mil vezes a punção de um abscesso! Conhecia bem o tipo: mora sozinho, tem mais de setenta e alguns não batem lá muito bem. Mas, hoje não vai dar, não. Estava em seu enésimo paciente. Só convênio. Sem almoço. E olhe que já era praticamente hora do jantar.

_Façamos o seguinte: largue suas sacolinhas aí e tire a roupa, que já vou examiná-lo.

_É pra deixar aqui?

Santa paciência. Falo grego por acaso? Aqui. Ali. Tanto faz. Desde que acabemos logo com isso. A essa altura, tudo que a doutora queria era ir para casa. Era seu quinto plantão ininterrupto. A falta de sono, e de comida descente, estava definitivamente mexendo com ela.

_Ainda aí parado? Largue essas sacolas e tire a roupa senhor… Enzo…

_Júnior.

_Tá. Enzo Júnior. Que seja. Agora vamos ver… Está me parecendo tudo normal, seu Enzo…

_Júnior.

_Sim, sim… Agora abra bem as pernas…

Apalpou. Olhou. Nada aparente, até aqui. O velhinho estava cada vez mais sem lugar. Velhinhos… Bom, melhor que adolescentes. Nesses, melhor nem tocar, que o bichinho já responde. Uns ficam sem graça. Outros se acham o máximo. Ainda me pergunto se cardiologia não teria sido uma especialização mais acertada. Eis que vem a pior parte: a do convencimento.

_Por enquanto, tudo bem, seu Enzo Júnior. Agora preciso que o senhor vá até aquela salinha, e fique de joelhos sobre a maca. Numa posição de gatinho…

_Ah, não! Assim eu não fico…

_Seu Enzo Júnior, vamos facilitar as coisas. Tem mais gente esperando… Será que terei que chamar um enfermeiro?

_A senhora chame quem a senhora quiser. Assim eu não fico e…

Ai, meu Deus! Depois a gente manda embora sem examinar e ainda reclama. Aí vem com a conversa mole de que médico particular é outra coisa, que nem no SUS ele seria atendido assim e blá,blá,blá…

_Então, seu Enzo Júnior, me dê a sua mãozinha aqui e fique bonitinho na posição, por cinco minutos. Quando o senhor se der conta, já acabou, ok?

Ele se manteve firme. Não quero. Não preciso. Não vou. Ela que já tinha gasto todo o seu bom português, perdeu de vez a esportiva. A paciência já tinha ido, três pacientes atrás. Mandou entrar dois enfermeiros. Não demorou nem dez minutos e o seu Enzo já estava de volta à sala de atendimento, vestindo novamente as calças.

Ele, visivelmente contrariado, não parava de reclamar. Injuriado. Mesmo.

_O senhor, aparentemente, não tem nada. Vou pedir mais uns exames. Só por garantia. Alguma dúvida?

Ele olhou bem feio para ela. Aproximou-se mais ainda da mesa da doutora e retomou seu discurso. Dessa vez, sem espaço para interrupções.

_Não tinha refrigerante diet, nem normal. Então o pessoal do restaurante mandou suco. Fruta do dia. Por conta da casa. Agora nem adianta ligar reclamando que a comida tá fria. A culpa é toda da senhora _ e completou _Tô pondo na sua conta e se quiser mais alguma coisa, melhor ir buscar. Porque entrega para a doutora eu não faço nunca mais.

Saiu batendo a porta.

O bonde da Jana

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Pense em um lugar que agregue. Pois é. Não era nem de longe o caso.

Falo de um banheiro. De balada. Mas, ainda assim, um banheiro. Com ela dentro. Chorando. Mais que loucamente. De sóbria, só a amiga, pererecando em volta e insistindo:

_ Êta, Jana! Também não é pra tanto…

Ao que a outra responde, aos prantos cuspidos _ Culpa sua! Dona Maria-Conversinha-Mole. Fui te ouvir, olhe no que deu! E agora, Einstein? Resolva. Quero ver…

_Ô, gente, qual o problema com essa garota? – quis saber a pescoçuda. Lá do canto. Segurando quinze bolsas e esperando sua vez.

Novos e curiosos olhares. Foco cem por cento nela. Numa Jana histérica. Maquiagem liquefeita e escorrendo. Praticamente morfada em panda (se é que isso ajuda na compreensão do quadro geral).

_Tá. Tá – admite a amiga, num prenúncio de mea-culpa_ Eu até que sugeri, mas quem beijou foi você. E juro que nem sabia do outro…

_Opa, opa, opa – acodem umas várias, mexericando o futrico alheio _ Dá pra explicar isso direito? Que outro? Quem mais?

_ O outro é o Fagundes – animou-se a narradora _O caixa-forte da casa…

_Que é o namorado dela? – arrisca uma, tentando adivinhar.

_Não. Esse é CASO. E já faz um tempo, né, fofis?

Mas a fofis não responde, só espuma. Prestes a voar na jugular da tagarela-ex-amiga-dedo-duro, que segue descrevendo, na maior tranquilidade_ E estaria tudo bem, não fosse a Jana encontrar o Freddy…

_Que é o namorado dela? – dobram as apostas. Agora, em maior número.

_Não. Esse é PEGUETE…

_Vixe… – cresce o zum-zum-zum na roda (deixando sem cadeira a tiazinha da faxina. Que, aliás, largou mão do rodo e balde, pra poder ouvir, também).

_Bem quando chega o Ozório…

_Ozório? – quem pergunta é a loirona.

_É. Esse é o NOIVO. Também dela, da Jana…

_Ei! Tem alguém aqui tentando fazer xixi… – a reclamação vem da última portinha.

_Segure. Mire. E pense em água corrente _ responde uma Jana atordoada.

_Que Mané-Segure-E-Mire? Tá doida? – era a amiga, aquela metida a radialista, tentando demovê-la do transe.

_Ué, funciona com o meu filho…

Do fundão vem a pergunta_ Ô, Jana, o guri é filho do caso, do noivo ou do peguete?

_Do EX – diz a pobre, visivelmente fora de esquadro.

_Deixe ver se entendi – acrescenta uma magrelinha, se achegando ao grupo, num assanhamento daqueles _Você é noiva. Tem um caso, um peguete e um filho, tipo nenhuma das opções anteriores, certo? – a essa altura, era difícil abrir caminho no banheiro apinhado_ Menina, sou sua fã!

Um Buá homérico corta os ares e a graça _Ô, Sem-Noção, não tem mais o que fazer, não, minha filha? – reclama uma da audiência.

_Vê bem: não sou popular. Uso aparelho. E pra piorar, sem traço de peito, nem sombra de bunda. Sendo assim – pede licença e senta_ Não volto pra pista, nem a pau, Juvenal – e acrescenta _ A propósito, alguém aí tem cigarro? “Tô” mega-a-fim de um peguinha…

Eis que a irritadinha da bexiga cheia se revela. Marcha rumo ao cerne da bagunça e diz pra panda, (ou melhor, Jana) _Será que dá pra fechar essa tramela?

Nova e irritante crise convulsiva. Aos berros. A desconhecida, muito da desagradável, não se sensibiliza, nem um cisquinho, com aquela cena toda. E adverte, na maior má vontade _Alguém segure essa desestabilizada, que vou lá fora e acerto tudo – fecha a cara por completo. E segue. Na pista não se detém. Sai catando. Nêgo a nêgo. Sem deixar ninguém de fora.

Mais que rapidamente, a amiga-narradora reassume o posto de comando (com a fuça presa a janelinha basculante) _ Jesuis! Parece que contou foi tudo…

_Tudo? – desesperou-se a Jana.

_Tá tudo virado num  “fuê” sem tamanho. Ninguém se entende. E parece que vai ter briga – silêncio absoluto. Olhos cravados nela, que segue desfiando _ A “Tensinha” tá no meio. Embarrigando os três. Mas, espere um momento: está levando o peguete prum canto e… Caramba! Essa mulher tem brio. E gosto…

_Que gosto? – quis saber a Jana.

_Bom gosto! Tá dando o maior cato no peguete e… Nãooooo! Cruzes! No noivo também…

_”Cuméquie”?

_E seu caso foi lá…

_Tirar satisfação? _ quis saber alguém.

_Imagine! Casquinha mesmo. Aquilo está é uma sem- vergonhice só! Deus que me perdoe…

_Eu vou lá! Eu vou láááááááá – era a Jana pista adentro. E a galera no encalço.

A confusão foi completa. Mais que isso. Medonha. Com noivo atrás da panda. Panda atrás da moça. Moça a fim de enguiço. E enguiço era o que não faltava.

No banheiro, só a magrelinha. Ali. Engastalhada a porta. Sem perder sopapo que fosse. Pena não ter um cigarro. Mas, quer saber?  E deu de ombros, Caracas!  Muito massa esse banheiro. Sério, mesmo…

Trago seu amor de volta

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Se tem algo que não caduca, nem sai de moda, é o amor. Como eu sei? Tá na cara. Ou melhor, no poste. 

É isso mesmo. Em letras garrafais. Faixas que interligam esquinas, ou colados, mal e porcamente. Por todo canto. Enfeiando tudo. Amor de sinaleira. Que vem em sete dias. Resultados comprovados, ou seu suado dinheirinho de volta.

Um amor fujão. De quinta categoria e na numeração errada. Desses que não cabem. Nem servem. Pra nada. Que como veio, partiu. Deixando para trás um coração bem pouco a fim de esquecer. Por costume. Mau gosto. E falta de opção (ou de vergonha, na cara, vocês escolhem).

 Mas, calma. Nem tudo está perdido: sossegue o pranto desandado e se oriente. Pois na fascinante era do meu-mundo-primeiro, se há dor, há solução. Geralmente, a um telefonema de distância. Custos devidamente tarifados. Cinco por cento à vista, ou quatro vezes no cartão.  

O amor existe. E pronto! A medir pela quantidade de anúncios, mais acessível do que nunca.  Um amor requentado. Foragido. Prestes a ser capturado.

Arrastado, amarrado e acorrentado (falei amordaçado? Não? Pode incluir. Vem no pacote). Até que retorne, doce e pleno, aos seios daquela muito amada (de onde o canalha-desqualificado nunca deveria ter saído, pra início de conversa). E pode anotar aí que ele volta. De um jeito ou de outro (meio cambeta, é bom admitir). Amputado de alma e capenga de vontade própria. Mas, volta. Ô, se volta (deviam inventar logo um chip. Um rastreador de nêgo-lambão. Só por garantia. Do jeito que a coisa toda anda, melhor prevenir que remediar) Então, é isso. Tá bom pra você? Pra mim, não.  

Que vou fazer com um amor assim? Me fale? Um amor roto. Subjugado. Triste de pai e mãe. Que não me quis por bem, mas terá que engolir por mal. E assim seremos felizes. De descarrego em descarrego. Sob as bênçãos dos orixás.

Amor não combina com mandinga. Combina com querência. Mas essa é livre. E vem da entrega. Agora, se o assunto é simpatia, espero que a minha seja mais que suficiente pra te encantar. Caso contrário, quer saber, mesmo? Vá andar! Sou mais meu sorrisão laico e solto, que sua carranca hermeticamente fechada. Prefiro amor de verdade. Ou minha felicidade de volta.

Amor é isso. É osso. Enrosco colocado. E dos bravos. Mesmo. Dá dor de cabeça. Dor de estômago. Piriri. E dor de cotovelo (efeito colateral dos mais comuns e rotineiros. Empola, mas não mata). E é assim que tem que ser. Direto na carne. Forjado a ferro e fogo.

Chorou? Azar. Balance as plumas e parta pra outra. Mas porque quis. Ou não quis. E, fim.  Sem essa de trazer na marra. Por carma. Ou cabresto curto.

Quer ficar, a casa é sua.

Quer sair? Primeira porta. Logo em frente. Essa mesmo. A escancarada. Achou?  Só não passe ferrolho, nem se incomode em encostar. Isso. Deixe aberta, que nem trisca e já tem outro pra entrar. Quem?  Quando? E eu que sei? Hello! Sou pra frente, mas não adivinha. Eu, hein? Tô falando…

Programão de pai

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Lar. O merecido pouso do guerreiro.

Foi uma semana cheia. Dessas em que os dias duram meses. E os problemas brotam. Assim, à toa. Um mais cabeludo que o outro. Mas quem se importa? Logo estaria em casa. São e salvo.

 Cansado. Mas feliz. Sensação plena de dever cumprido. Melhor entrar.

Tudo nos conformes. Não tivesse ele se esquecido do cachorro. Um até bem grande. Capaz de converter o mais inofensivo quintal em campo hostil. Minado. Agravado pela a chuva de ainda há pouco. Ontem, até conseguiu desviar. Mas hoje, quando viu, já era tarde.

O mais novo foi quem deu o sinal _Manhê, o papai foi abatido – ao que a mulher emendou _ De novo? Direto pro tanque. E vê lá, hein? Se sujar o chão, cê que limpe. Tá me ouvindo?

Quase em casa. Quase no banho. Quase mudando de ideia e voltando correndo pro trabalho. Não estivesse ele com dois moleques pinçados. Um em cada perna. E com um pé de sapato imundo. Por lavar. Lá nos fundos. Numa pia que mal cabia o cotovelo.

Fez lambança. Molhou tudo. Deitou sabão no olho do mais velho. Deu mal jeito nas costas e ainda ouviu reprimenda.  

Melhor beber. Se tivesse como. Mas no dia em que nada ajuda, nem a geladeira alivia. E olhe que vasculhou. E vasculhou com fé. Latinha? Só na despensa. Quente. A mulher veio com gelo. De que adianta, me diz? Ainda se fosse uísque. Mas era cerveja. Melhor deixar pra lá.

Passou a seco. Sem um belisco, nem cigarro. Pra piorar, só mesmo a filha, mais duas pencas de amiguinhas, aboletadas no sofá e assistindo Chiquititas (bem na hora do jornal e na maior zona). Quis transferir as ferinhas. Nada feito. Dalí não arredavam. Nenhuma chance.

Tentou o escritório. A cozinha. A TV preto e branco da lavanderia. Todas ocupadas. É. Não deu, resignou-se. Foi ter com a patroa. Sabem como é. Bater um papo, em nome dos velhos tempos _ Nem vem que não tem – esquivou-se ela_ Tô dizendo…

E não parou por aí. Teve também o fatídico, Paiê, ele me chutou!, seguido pelo esperado, Foi ele quem começou! Eu juro!, e o já famoso, Seu Cleber, o chuveiro queimou. Dá pra trocar?, somado ao não menos importante, Benheeeê, o cachorro tá com berne. Faz compressa de bacon nele pra mim?

Situações extremas pedem medidas drásticas. Foi o que fez, escondendo-se sob as cobertas. Quietinho. Quase sem respirar. Até que sentiu a ponta da camisa repuxando (a sua frente, um homem aranha todo sujo. Que cutucava o nariz e o fitava. Ambos com a mesma intensidade e insistência).

_Paiê, brinca comigo?

_Amanhã.

_Hoje é amanhã?

_Não. Hoje é hoje.

_Demora pro hoje virar amanhã?

_Um bocado.

_Um bocado de quanto?

Resolveu apelar pra autoridade (se é que ainda tinha alguma).

_Vai dormir, moleque!

_Bem que eu queria. Mas não posso.

_Por quê?

_Tô de plantão. Não percebeu? – pra cochichar, em seguida _É a casa, pai. Anda virada. Tipo do avesso, sabe?

Eu que o diga, meu filho. Eu que o diga…Catou o espirro de herói e com ele rolou até cansar. O barulho atraiu a tropa toda (perdia quem caísse primeiro da cama. Só não valia morder. Nem arregar). Um bololô só: mistureba suada de mão de pai, com pé de filho. Colados num mega-abraço-urso. Sobrando joelho lanhado pra cá, e boca banguela pra lá. Tudo melado e encardido. Do jeitinho que tem que ser. Em um TE-AMO-PAI de carne e osso. De fazer perfeito o dia. O ano. E a vida. 

Quem dormiu primeiro, ninguém viu. Nem a mãe. Que desligou o fogo e veio ter com eles.  Toda assanhada. Afinal, programa assim, a gente não perde, nem troca. Por nadinha nesse mundo.

Ainda aprendo.

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Sai ano. Entra ano. E, quando a gente vê, lá se foi março, abril e maio.

Carnaval? Não deu nem pro cheiro. Bastou piscar, virou setembro. E marque passo pra você ver: dormiu outubro, acordou dezembro. Aí, finou-se. Melhor tratar logo de voltar ao parágrafo inicial. Mesmo que um tanto mais cansada, depois dessa maratona toda de final de ano.

Não me refiro aqui a nenhuma São Silvestre (porque pra essa tem preparo. E refeição balanceada na véspera). Falo das inúmeras listas e seus zilhões de preparativos.  Do muito a se fazer, bem quando os carros param, as filas dobram e o dinheiro míngua.

Todo ano é a mesma coisa. Uma presepada homérica, que, aliás, segundo marcações em meu calendário, começa meses antes. Em agosto, pra ser mais exata. Pouco antes do Dia dos Pais.

Nada contra o seu Gerval. Aquele. Meu doce paizinho. Que, diga-se de passagem, é até bem fofo. Desses facinhos de agradar. Que faz o tipo tudo-tá-bom. E serve. E combina. E, o que é melhor, ele usa. Até gastar!

Ser filha é moleza. Difícil, mesmo, é ser esposa do pai das minhas filhas. Achou estranho? Pode deixar que explico:

Criança presenteia, mas quem compra é o adulto. E é aí, justamente aí, que reside meu sufoco. Foi-se o tempo em que os pais ganhavam meias. Gravatas. Ou lenços de bolso. Mas o mundo mudou. Impôs novas regras. E eu que me vire pra fazer esse homem feliz (regra número um do presente de sucesso: criatividade. Número dois: praticidade. E, ainda por cima, o “mimo” tem que ser útil. Vixe).

Entra em cena a lei da relatividade: um colar de diamantes com fecho automático de zircônia é criativo. E, com certeza, muito prático. (ao menos pra mim, não sei quanto a eles). E que tal um secador ultrassônico, que alise, modele e reverta os brancos? Quer algo mais útil? Se tem não conheço. Nem nunca ouvi falar.

E não para por aí. Além de “bacanudo”, tem que ter precinho. Um custo benefício de saldão das almas (ou corro o sério risco de ouvir num ad eternum perpetuum a ladainha envolvendo meus fartos atributos perdulários).

Por outro lado, se barganhar demais, periga acabar outra vez em chorumela. Pior ainda que a primeira. Com direito a reverberação. E essa é macabra. Pois na sequência, vem meu aniversário. Depois, Natal. E presente é bom. E eu gosto. Demais da conta!

Então apelo aos Deuses. E ao mundo subjetivo. Esquecendo de vez os perfumes. Os cremes pós-barba. E os sapatênis de solado branco. Parto em busca da redenção. Do caminho que leve a Shangri-la (seja lá onde isso fique). Presenteando com alma. Estilo. E o que de melhor pode haver em toda a terra: ou seja, eu. Euzinha da Silva Santos. Em embalagem premium. Double deck. Medalhada e prontinha pra viagem.

Então tá. Mesa posta pro jantar. Agora é só despachar as meninas e dar aquele tapinha básico no visual. Um trato aqui, uma bossa ali e voilá!

Se bonita ou feia, pouco importa, já que ninguém viu. Ou se viu, nem ligou. Só sei que cheguei tarde. Com o primeiro tempo adiantado. Quatro escanteios e um gol de falta, antes mesmo dos vinte e cinco iniciais.

Tento uma reviravolta. Um troço qualquer que impactasse. Como um repuxado a mais no decote ou aquela cruzada infalível de pernas.

Nada. Também, que podem meus pobres cambitos contra as bitelas rasgadas do atacante? Babar nas coxas do Luis Figo, ainda vai. Mas pelo Dentinho? Ui! Pra que Blondor, me diga? E sem essa de cera de mel, ou esfoliação. Quer Ibope? Tente é um bom par de chuteiras. Calção meia sola e camisa dez da seleção. Um arraso. Vai por mim…

Sigo ali. Devidamente posicionada. Toda fofinha e cheia de expectativas. Esperando por ele. E pela noitada. Que segue encruada, quase azedando.

Acerto a pose. E o vinho. Finalmente ele se toca (da garrafa, o que a essa altura, já é um bom começo). E faz menção às vacas magras. Algo envolvendo uma possível situação de descabido desperdício. Bem quando teve um insight_ Faz assim, ó: aproveite que tá em pé e ligue pro Deco. Depois pro Galvão. E mande chamar mais dois, que é pra inteirar o pôquer. Tô sequinho por um royal flush!

Cruzou a sala gingando. Todo animado. Pra deparar comigo, de camisola e salto doze. Na maior cara de num-tô-crendo que já se viu na minha história.  

_Vai ficar aí, assim? – perguntou ele _ Credo, Ana, veste um troço direito! Eu, hein…

É. Viu, só? E ano que vem tem mais. Mas, dessa vez, estarei prevenida. Promoção de aparador de pêlos de nariz, aí vamos nós! Sem medo de ser feliz. O pior é se eu emplaco. Ô, vida. Ô, coisa…

Salve-Salve, Simpatia!

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Esforços e talentos a parte, se fosse pra dividir, com base no que é natural, acho que ficava mais ou menos assim: cronista? Um passo atrás. Isso. Vai apertando que cabe.  Poeta? Também é fácil, viu? Ponte aérea, de meia em meia hora. Depois, é só se deixar arremessar no colo moreno da Guanabara. Sob as bênçãos do santo papa (Ah, esqueci, ele já foi, né? Esquente não, o Redentor continua lá, braços abertos e a esperar, igualzinho a canção), em plena Lapa carioca.

Esqueçam os bairrismos. Falo em nome da arte. Em prol de nosso rico acervo etílico, musical e literário. E explico o porquê. Experimentem mover Vinícius e Jobim do Leblon ao Itaim, só pra ver a encrenca que dá. Se a Helô Pinheiro morasse na Água Funda ou Campo Belo, Garota de Ipanema nem existiria, ou teria, no mínimo, um cenário bem menos atraente. Se bem que acredite, piamente, que toda paulista traga em si uma diva. Com direito a hino e ode. Drum and bossa e rock n roll.

E daí se não temos praias? Temos shoppings. Ondas de preço e maré de azar. Se bem que loja lotada nunca rendeu soneto. Nem sambinha de uma nota só. Quando muito, ganha jingle. Coisa difícil de cantarolar baixinho. Banquinho e violão, então, nem pensar.

E daí se não temos sol em abundância? Tem feriado que até rola. É quando migramos de um pálido-azedo-leitoso ao melhor hot-sauce- arrabiata. Ardendo horrores e em tiras. Num piscar repuxado de olhos. Afinal, quem tem tempo pro gradual? Nós? Com certeza, não.

Estamos sempre correndo. Não temos oito. Só oitenta. Sendo assim, esqueça o dourado uniforme e dê um grande viva ao inventor do after sun: refresca que é uma beleza! Pena que desbota. E mancha. Ficando pior do que era. Descamando feito um mandiopan (gente, lembram do mandiopan? Essa eu desenterrei, né?).

Mas valeu, serão essas as palavras da guerreira. Que enverga, mas não entrega. Ainda mais depois de lombar tanta estrada. Com filho atrás brigando, cantando e golfando. Sem falar no resto todo. Rádio que não pega. Fina de caminhão. Carro que não anda. Marido que reclama. E haja paciência. Mas somos positivas (areia não rala, esfolia. Rinite não mata, dá resistência. Alergia a picada é transcendental. Quase um rito de passagem para a vida adulta). Então, tá. Que seja.

E pra quem ainda se impressiona com o capitão Nascimento, devia estagiar, só por uns dias, em um desses espigões da Berrini. Daqueles que nunca apagam. Horário de Brasília? Bobagem. E daí que já passa das duas da madruga? Com certeza tem gente trabalhando agora. Aqui e em Tóquio.

Podemos não ser tão lindas, nem tão cheias de graça. Mas temos cá nosso charme. Só que aqui, praticidade vem primeiro. Sendo assim, esqueça os cachos (alisado é melhor. Atende tudo. Reunião de última hora, velório ou despedida de solteiro) e dê adeus às blusinhas frufru (minha sala só tem macho e bate fácil menos cinco Fahrenheit).

Se quiser é assim. Um que-te-pego-que-te-agarro descomunal. E trate de arregaçar bem as mangas e correr. Sem essa de doce balanço a caminho do mar. Já nascemos atrasadas. Com saldo de horas negativo.

Mas e o ziriguidum? Como é que fica? Esquente não. Pois o samba que nos falta aos pés, explode o peito em plena apoteose. Repondo em garra, e força, todo esse balanceio que ficou pra trás. Compensando em atitude, o pouco jeito que temos quando o assunto é requebrado. Portanto, não se enganem: se me virem gingando por aí, desconfiem. De duas, uma: distensão muscular ou salto que coxeia.

Somos assim. Sem curvas. Sem tempo. Sem almoço. E sem descanso. Gazelas com angina. Que, nem por isso, aliviam a caneleira. Pelo contrário, aumentam a carga. Dobram. Quadriplicam. Pensando nos milhões de quilos por perder. Mesmo que magras. Retas e longas. Como uma estrada rumo ao interior.  

E é esse mulherão, dotado de métrica própria, quem vai quebrando miudinho. Faltou molejo? Sobrou coragem. É ela quem conduz. Firme e bonita. Mundão afora. Deixando muito pé de valsa a ver navios. Perdido. Sem saber por onde começar.

E daí se nosso loiro não é natural (nem tão assentado quanto gostaríamos)? Também não temos corpo de sereia, é melhor admitir. Mas combinamos uma echarpe longa com um trench coat, de fazer corar de inveja a francesa mais bem colocada! Afora a simpatia que nunca dorme. E as respostas na ponta da língua. Pra tudo. Desembainhadas e doidinhas pra acontecer. Touché!

Multifuncionais. Pau pra toda obra. Assoberbadas. Viajadas. Complexas. E transversais. Embrenhadas em uma busca eterna pelo EU interior, mesmo quando o EU exterior não anda lá aquelas coisas. Somos intensas. Doces. E ardidas. Que nem pimenta no azeite. Então não mexa com a moça (ou melhor, mexa. Muito. E com vontade. Mas vai com jeito, se não) …

Alguém que não espera. Que faz. Que procura. Um emprego. Um aumento. Um amor. Um companheiro. Um alguém pra andar junto. Passos firmes e largos. Que nos preste atenção. Aos mínimos detalhes. E nos faça a devida deferência. Um poetinha meio à moda. Bem ao ponto. E na medida. Completamente fora de esquadro. Desses incorrigíveis. Capaz de amar incondicionalmente. Que nos decifre e devore. Não necessariamente nessa ordem. Amém.