Coisas de Casal

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_ Precisamos conversar – era ela. De novo.
_Sei.
_É bom saber, mesmo! O trem tá feio pro seu lado. E não pense que vai me levar no bico. Não dessa vez!
_Huhum.
_Huhum, vírgula, Sr. Luiz Alfonso Ornellas e Bragança.
_ Que foi agora? Eu é que não fiz nada.
_Ah! Como vai, Senhor Nunca Faz Nada? Começava a sentir sua falta – respondeu, atrevida.
_Ai. Ai – resmungou ele, tentando fugir ao cerco que apertava.
_ Ai. Ai. O quê?
_ O que, o quê?
_ Eu é que pergunto. Quiéquitá pegando, hein? Fale. Mas abra o peito. Sem medo de ser feliz.
_Quer saber? Nada.
_Como assim, nada?
_Nada. E ponto final. Sei muito bem como isso termina. Então, não conte comigo. Se quiser: F-A-L-E S-O-Z-I-N-H-A!
Disse isso e saiu. Ela precisaria correr, caso quisesse continuar brigando.
_Por que tem que ser assim? Do seu jeito. Sempre – ela ainda tentou esticar.
De retorno só a melodia que ele assoviava. Baixinho.
_Não faça isso, está me ouvindo?
Não. Ele não estava. Ou até estava. Mas jamais assumiria. Coçou as costas, trocou o pijama e passou através dela, procurando algo para ler (tinha sempre uma revista à mão, estrategicamente posicionada, pra situações de perigo como essa).
_E a gente? Fica como? – insistiu ela. Esvaziando, pouco a pouco _ Depois de tudo, acho que você nem liga mais pra mim _choramingou, ressentida.
_Sabe o que eu acho? Que é hora de dormir. Depois a gente fala. Prometo.
_ Como prometeu ontem. E antes de ontem. E antes de antes de ontem. Não, meu amigo. Muito obrigada. Não vou dormir. Mesmo se quisesse. Não posso. Não consigo. Nem em séculos – catou de lado seu travesseiro (aquele bem molenga, de infância) e marchou resoluta, rumo ao quarto ao lado.
_Dorme você. Vou zanzar por aí. Ver se esfrio a cabeça. Tô brava demais pra parar. Magoada demais pra parar. Mas quem liga, não é mesmo? – teve ainda tempo prum último beicinho _ E daí, se nem vou pregar o olho? E daí, se amanhã começo cedo? E daí, se nem sei mais avaliar o tamanho do estrago. O quanto dói. Ou incomoda (fungou). Culpa minha, eu sei. No final é tudo, sempre, culpa minha.
Ele ouviu quando a porta bateu. Decidido a não mover um dedo. De jeito nenhum. Nem por decreto. Também, pudera. Quem mandou escolher uma mulher assim? Tão difícil e empacada. Agora, aguente. O pior é que ela sempre foi assim. E não muda. Nunca. Raios! Bufou e Revirou. Mais uma vez. Uma magrela-mandona, isso sim é o que é. Com mais vontade que bunda. A mesma, depois de todos esses anos. Sem tirar nem pôr. Ah, essa danada…
Riu. Pronto. Ferrou tudo. Sabia que iria ao resgate. Afinal, não havia motivo. Nem culpa. Sabem como é. Dia de cão. Quando tudo dá errado (nada haver com ela, mas a gente fica mexido). E, quando viu, estava no jeito, virado no avesso do capeta.
Imaginou a pobre. Amarfanhada num cantinho. Rodando de lá pra cá. Amuada. Chorando, até. Triste pelo colo que faltou. Pelo mimo, que ele (o monstro), não teve saco de dar.
_ Olhe, benzinho – disse ele, baixinho, enquanto abria a porta, ressabiado.
Mas ela já dormia. E roncava. Boca aberta e tudo. Cabeça despencando pra fora da almofada.
Não ia dormir, né? Nem em séculos. De jeito nenhum. Sei. Tá…
Não tinha nem sombra de dúvida. Depois de todos esses anos, ela continuava a mesma. Sem tirar nem pôr. Ah, essa danada…

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