O Velório

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Dona Cotinha é assim: velhinha simpática. Tipo mignon. De passinhos curtos e bolsinha de mão à frente do corpo. Fofa, eu diria. O problema todo é a boca. Uma tramela aberta que não fecha por nada. Nunca. Com pitaco engatilhado pra tudo. Dia e noite. E, justo hoje, não seria diferente.
Confere o nome na placa. Memorial Golden Gate. Isso mesmo.
Dirige-se a mocinha da recepção.
_ Sabe do Alfredão?
Olhar de estranheza, seguido de resposta reticente, Deixe-me verificar. Alfredo Caldas Fontes?
_Pode ser. O caixão é grande?
Silêncio do outro lado.
_Deve ser ele _ conclui a senhorinha, que segue manquejando escada acima.
Salão Oval. Andar superior. Deve ser aqui. Espaço imponente, lotado de amigos e parentes.
Aproxima-se de uma moça que funga alto, dando logo um jeito de engatar conversa _Conhece o falecido, é? De onde? Ah, do trabalho. A minha neta também. Eram muito amigos, sabe? Gente boa esse Alfredão. Gostava de todo mundo. Bom, quase. Do chefe é que não gostava. Mas também, gostar de um tipinho desses, como? Não é mesmo?
Nisso, um senhor fortão, de olhos avermelhados em função do choro contido, vira em sua direção. Era o chefe do Alfredão.
_Ah, é o senhor, é _ disse ela _ Fez o que fez ao pobre em vida, agora vem paparicar o defunto. Morreu já era, meu filho. Mas não fique chateado, não, viu? Ninguém gosta de chefe, mesmo. E se falassem de mim, metade do que diziam do senhor, eu também ficaria uma pimenta _ dá de ombros e sai. De fininho.
Encosta-se na mulher ao lado do caixão e sorri _ Ah, é a viúva? Que bonitinha, gente! Mulher moderna, benza Deus. Eu, no seu lugar, nem sei se estava aqui. Essa história de chorar homem dos outros, não sei não. Mas fazer o que, né? Amor é isso. Tanto faz se é a primeira, ou a segunda, ou a … Eu é que não entendo! O que leva um homem, com uma mulher inteirona assim, a fazer uma coisa dessas?
E segue falando, sem largar o osso_ Bem que eu disse! Mas que diferença isso faz, não é mesmo? Claro que sei (todo mundo sabe). Filho com secretária é difícil esconder. Um ou dois, a Martinha, minha neta, é quem tem os detalhes…
A mulher, agora aos prantos estourados, desfalece de vez sobre o finado. O caçula, que a tudo ouvia, marcha resoluto em direção a um grupo de mulheres. Ali. Bem pertinho do café.
Danou-se. Bastou um resmungo torto do chefe do Alfredão pro primeiro sopapo abrir os serviços. Confusão armada e o pau correndo solto.
Dona Cotinha faz uma reza. Curta. Benzendo e boquejando. Credo! Muito confuso, esse povo do Alfredão.
Trombou com a Martinha quando saía.
_ Vó, onde você estava?
_No velório do Alfredão.
_Que Alfredão, vó? É Marcão. E quem morreu foi o tio dele. Mas vamos lá. Estão todos preocupados com a senhora. Dê a mãozinha aqui. Vamos descer…

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