A primeira noite de um homem

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Tem coisas que incomodam. Mais que cisco no olho. Virgindade estendida, por exemplo. No caso dele, então, nem se fale. Mais de trinta. Homem feito. Barbado. E, nada.

_ Ah, não, Creusa. Pra mim, chega! Bastou.

_Também não é pra tanto – correu ela ao socorro _ Virgindade, hoje em dia, é diferencial. Ainda mais, num homem.  Você é uma preciosidade. Um diamante bruto. De um metro e setenta e cinco.

_Fácil pra você falar. Que é rodada (e bem feliz, diga-se de passagem). Mas, num macho? Sem a menor condição – nada o demovia. Estava decidido _ Em todo caso, resolvo isso agora. Ande! Vamos! Que já perdi o jeito e a paciência…

_Ãh?

_Qual o problema? Fica tudo em família. Além do mais, dispensa daquele trololó todo: não preciso elogiar, dormir de conchinha, nem ligar no dia seguinte. De quebra, com a grana das flores, ainda pago o chope. Que tal? Não é lindo?

_Cê tá doido, é?

_Ah, vai. Quebre essa. Por favor. Se não pela amizade, por dó. Ou pena. Pra mim, tanto faz.

_Esqueça! Nenhuma chance. Cai na real, homem: vá namorar. Achar alguém com quem sair. Credo. Que encosto…

 Seguiu tentando. O problema é que não emplacava. Queria amar primeiro pra fazer depois. Foi escolher demais, ficou na esteira. Macho não faz cera, faz sexo. E quando decidiu correr, deu n’água. Começaram os desencontros: era um tal de “Agora que dá, eu não quero”, com “Quando eu quero, não posso” que vou te contar uma coisa.

E assim foi sumindo. Afora a compleição mirrada, sofria, também, de surtos alérgicos constantes. Vivia fungando e maldizendo. Se não era rinite, faringite. Depressão. Ou embolia pulmonar.

Mas, cá entre nós, tem guria que não ajuda! Experimente, você, no auge de uma crise aguda, sair com uma criatura marinada em Phebo Lavanda.  Tem quem use Alfazema. Ou bergamota. Pior é baunilha com canela (dá vontade de besuntar e guardar numa forminha). Mas, o tiro de misericórdia ficava por conta do fatídico Leite de Rosas. Ui! Constipava só em pensar. Ainda bem que virou enfeite, de penteadeira de avó. Assim, podia voltar a sair e farejar. Sem medo de ser feliz.

Melhor focar. De volta à listinha de contatos. A primeira a topar, vale. E foi a Ana.

Saíram. Ela de vestido novo. Sapato novo. Casaquinho. Meia. Enfeite de cabelo. Tudo novo. Nele, de novo só a cueca. Vermelha, cavada e benta de terreiro (ouviu dizer que dava sorte).

Ela bem que queria. Mas, na hora H, travou. E dá-lhe vinho pra alinhar e restabelecer. Mandou descer a adega inteira: Malbec, Shiraz e o capeta. Levou tempo. E ficou caro. Mas funcionou. A tensão inicial foi embora. Como se tirada com as mãos.  O problema foi deixar, em seu lugar, um enjoo daqueles. Fenomenal. Digno de final de copa do mundo. Mas, como falar em campeonato, com nêgo que nunca saiu da reserva?  E que hoje, mais uma vez, viu a bola quicando. Lá pra longe. Próximo a entrada dos vestiários. Isso mesmo: entre nosso viril perna-de-pau e a goleada de sua vida, havia um banheiro. E, nele, uma privada. Que devia estar imantada (só pode).  Aquecida e terapêutica. Pois foi lá que Ana passou a noite. É, suspirou ele, Zero a zero. Pra variar…

Voltou pra casa. Com o carro sujo e ainda mais contrariado.

Saiu na noite seguinte. E na seguinte da seguinte. Até atracar numa quina de bar. Ressentido da vida e da sorte. Foi quando uma jovem perguntou-lhe as horas.

_Quinze pra uma _respondeu, emendando na sequência _ Você bebe? Não? Que bom. Acabei de lavar o carro e o banheiro. Então, me diga, seu nome é? Ah, tá. Legal. Olhe só: sou gente boa. Moro perto. Sozinho. Meu apê é bacaninha. E tô muito a fim de levar você pra casa. No seu lugar, aproveitava. A essa hora, cê não arruma nada melhor. Então, podemos encurtar essa conversa e ir logo ao que interessa?

O bofetão foi certeiro. Sonoro e indisfarçável.

Surtou geral. Precisava de alguém. Na falta de parceira, apelou foi pra amiga. Sobrou pra Creusa, é claro.

_ Sou um poste. O último meio-macho-virgem da face de terra. E, o que é pior, vivo! – zanzava de cá pra lá. Inconsolável _ E pra quê? Me diz?  Enfeite por enfeite, melhor trocar num laço. Ou abajur. Que dá no mesmo – e seguiu repetindo. Mareado _ Ô, sina, gente! Ô, sina!

Ela ainda tentou interpor agravo, mas acabou rendida. Disposta a pôr um fim aquela cena toda.

_Tá certo. Tá certo. Também não é pra tanto – e acrescentou, com ternura_ Vamos logo com isso, que não tenho a noite toda.

Ele, por um instante, duvidou do próprio entendimento _ Você? Mesmo? Tem certeza?

_Não faça com que me arrependa – respondeu ela, num sorriso.

A ele, faltou chão. E coragem. Mal conseguia aprumar. Suando mais que chaleira. Ela percebeu e foi logo despachando. Prática que era nessas coisas.

_Tome. Pegue, aqui. Limpe as mãos e o rosto. Essas toalhinhas são tiro e queda.

O fato é que sossegou. Ao simples toque perfumado em sua pele. Sentindo-se cada vez mais amparado. Como se algo familiar o envolvesse. Lembrou dos tempos de menino. Dos cheirinhos suaves da infância. E sentiu saudades. Em especial, da avó.

_Ô, Creusa. Que cheiro bom é esse?

_Leite de rosas.

Tarde demais. Vertido ao chão, ele não ouvia. Nem enxergava. Na mais completa apneia _A… ler… gi… a… – ainda conseguiu dizer. E sucumbiu.  

Ô, hominho zicado, pensou ela, que corria atrás de um telefone. Tinha que ligar pra alguém. Bombeiro. Polícia. Pai de santo. Eu, hein…

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