A quase viúva

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Cismou que morria. Pode?
_Deixe disso. Você está ótimo – rebatiam os amigos.
_Que nada – retrucava o tinhoso_ Olhe só a pele. Isso lá é cor de gente? E o tanto que zonzeia, que pinica e que cutuca? Eu, hein. Não sei não…
Hora a cabeça. Hora o pescoço. Cada dia uma bossa. Um algo que doía. Ou um troço qualquer engripado.
Mas, no fundo, era um bom homem. Desses que o coração não cabe direito no peito. Por falar nisso, estava, no momento, indo ou vindo de lua de mel. Terceiro, ou quarto, casamento. Dessa vez com a Ornela. Vinte e tantos anos mais nova.
Que pena. Justo agora que começava a bater pino, diziam os mais chegados.
Deu de ombros. E começou a despachar. Numa pressa de finado. Tratando logo de encomendar um vice. Um suplente gabaritado e à altura de sua amada. Mas onde encontrar o eleito?
Com os inchaços abdominais crescendo e apertando, não teve outra opção: melhor acelerar as buscas. Espremendo e revirando. Fuçando, nêgo-a-nêgo, cada qual que lhe passasse ao lado.
Não escapou ninguém: do plantonista ao residente. Do enfermeiro ao manobrista. Até topar com o Izidoro. Aquele, do elevador de emergência. O ascensorista do pronto socorro central.
Agora era juntar lé com cré, e esperar ferver. Assim, ao avistar o moço, foi direto em afirmar:
_Eu? Vou do jeito posso. Aguentando como dá. Pior é você. Rapaz novo, boa pinta, vivendo por aí, jogado. Que nem cachorro sem dono – e não se acanhou em emendar _ Deixe de veadagem, Izidoro. Homem tem que se mexer. Arrumar alguém e sossegar.
Ao que o outro reage prontamente.
_Tô sozinho não, seu Souza. Tenho a Deus. E a igreja.
_Igreja salva e consola. Ponto. Já querência de carne, é mais embaixo. E pra isso não tem reza, nem novena, que acuda ou acalente _ era a deixa que faltava _ Do céu cuido eu, que sou velho e parto logo. Mas, você? Tenha a santa paciência! Tem que casar, Izidoro. C-A-S-A-R!
Cansado do teretetê (e antevendo o agravamento de novas crises) o pseudofalecido parte pro tudo ou nada.
_ O caso é o seguinte: morro por esses dias e não quero saber de nêgo lambão bulindo na minha cuíca. É pegar ou largar. Ornela é uma princesa. Cuide dela pra mim, que te deixo tudo que tenho.
_Ai, seu Souza, não sei não…
_ Tá surdo, ô, infeliz? _bradou o homem, suando e revirando_ Ela é linda dos pés ao pescoço. Uma tetéia, cê vai ver! Mas o próximo marido, esse, escolho eu. Aqui, malandro não trisca, nem por cima do meu cadáver.
Chegaram ao andar de exames. Bem quando seu Souza, aflito, fez a proposta final _ Amanhã volto com ela – e sumiu. Amparado por mais dois.
No dia seguinte, dito e feito, Ornela veio a tiracolo. Com o marido no encalço. Azucrinando.
_ Não, não e não. Sozinha é que você não fica – achou por bem advertir – Se fosse feio. Ou encostado, ainda vai. Mas é moço-novo. E crente. Então largue a mão de ranhetice! Que coisa…
Entraram. Seu Souza à frente, arrastando a moça. No elevador apinhado, empurrou um sobre o outro. E esperou. Bem manso. Observando o efeito do trabalho de semanas.
O sem jeito era mútuo. Palpável. Ficaram ali. Roçando braço com perna. E agora? Bonita ela bem que era. Se bem que ele não ficasse atrás. Então tá. Ruim é que não havia de ser.
Percebendo o ponto e a fumaça, o velho voltou à carga _ E então? Negócio de pai pra filho, hein?
Dessa vez não houve contestação. Ninguém falava. Nem piscava. Comprimidos e fascinados que estavam diante da coisa toda.
Era chegada à hora da decisão. Seu Souza, em pleno alvoroço, precisou correr. Deixando os dois para trás. Colados e fervendo. Sem saber, ao certo, nem por onde começar.
Já na consulta, gemendo e chiando, o pobre esperava pelo final. Que veio. Num copinho opaco e amargoso.
_Pronto. É só aguardar.
_Quantos dias, doutor?
_Meia hora.
O outro desmorona. Como assim? Tão já?
_Isso. Se muito. Agora vê se aprende: pimenta e feijão, não. Já lhe disse. E não vou repetir.
_Ãh?
_Gases, seu Souza. É isso que lhe acomete.
_Então não morro hoje?
_Disso? Nem hoje, nem nunca. Posso garantir.
O ex-finado não se continha. Ansioso que estava em dividir a novidade. Ai, caraca! Lembrou da mulher. Depois do Izidoro. E correu. O mais que pôde. Chegou bem na hora. Do bico. E teriam se beijado, loucamente, não fosse um soco certeiro, arremessando o moçoilo jardas além. Que ficou por lá mesmo. Estrebuchado. Sem saber de onde veio o toco, que lhe atingiu em cheio nas vergonhas e vontades.
_Mas, benzinho…
_Nem mais, nem menos, Ornela. Isso é pra aprender a não mexer com a mulher dos outros.
_E aquela história toda de…
_Coisa à toa de defunto!
_E daí?
_Daí que eu tô vivo, criatura. E cê nem sabe o quanto!
Foram pra casa. Ele, feliz da vida. Sarado e consertado.
Nem percebeu que a moça murchava. Abatida num mal repentino, já em estágio avançado. Infectada definitivamente. Acometida de um bicho secular e virulento. Desses entranhados, e bem difíceis de curar.

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