Velha é a vovozinha!

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Se era mais fácil viver e ser feliz nos tempos idos de minha avó, juro que não sei precisar. Mas uma coisa é certa: não se fazem mais senhoras como as de antigamente.

É só pegar uma foto pra entender do que estou falando. As vovós da era Telefunken (aquele caixotão com antenas e movido a palha de aço), tinham cara e pinta de nonna. Hoje, elas seguem camufladas. Se não chamar de , ninguém sabe. Passam fácil por mães. Ou tias.

Tudo mudou. Até no look. De Dona Benta a Christiane Torloni. Assim. Num pulo. Longe se vão as avozinhas de rosto abolachado, madeixas platinadas e mão santa pra fazer bolinhos. Cozer, benzer e chulear.

Quem não se lembra de alguma famosa fornada fumegante, que a simples menção já faz lotar a boca e o coração da mais tenra saudade?

Aonde foram parar as avozinhas de quitutes nababescos? Quer saber? Mesmo? Casaram e mudaram. E vou além. Morfaram!  Trocaram de turma. De vida. E de vez.

Hoje são magras. Esguias. Cabelos curtos e tingidos. Muitas delas sem mão nem pra fritar ovo. Bolo? Só de micro-ondas (e correndo um grande risco de embatumar).

Mas antes que minha filha se ressinta da avó que teve, vale lembrar que o tempo passou e minguou para todas. Se faltam horas e fôlego para nós, que só temos filhos; imagine para elas, que já criaram os seus e agora cuidam dos nossos.

A vovó, que antes tecia e bordava; agora, trabalha fora. Dirige ônibus. Leva os netos à escola. Ao Ballet. Natação. Judô. Inglês e alemão.

Elas dão banho. Comida. Escovam os dentes. Põe pra dormir e, de lambuja, consolam o menorzinho, aquele que se recusa a ir com elas, exigindo a presença imediata de uma mãe assoberbada e culpadíssima (que daria um braço pra que tudo fosse diferente, mas não dá. Não tem como. Então, pede socorro. E é a vovó quem aparece).

Podem não entender de planilhas. Nem tabelas. Mas quando o assunto é a netaiada, a coisa muda de figura: postam fotos. Vídeos. Jogam wii e usam skype para dar boa noite. Tudo por um sorriso banguela. Desses de desandar coração.

Foi assim. Com tanto nó pra desatar. Mais filho e neto para acudir. Que elas secaram. Aprenderam na marra o que não sabiam. E se entregaram, de corpo e alma. Alçando níveis de comprometimento jamais sonhados por nenhuma de suas antecessoras.

Com menos tempo e atribuições redobradas, algo teria que ser sacrificado. Lá em casa, graças a Deus, que foi o frango. Aquele dos almoços de domingo. Que hoje correm por conta do genro e suas picanhas maturadas. Assim, sobra tempo pra um colo antes do cafezinho. E um dedo de prosa, que se pudesse esticaria mais um monte de tanto. Mas é tarde. Amanhã as crianças acordam cedo. E, as segundas, é o avô que leva e a avó que busca.

É. O mundo está realmente mudado. Mais que isso. Mexido. O bom é saber que algumas coisas se mantêm. Sempre ali. Quietinhas.  Imutáveis e boas. Que nem cafuné de vó. E bolinho de chuva.

Signo de aquário

2 Comentários

Costumavam conversar durante o almoço.

_Três a um foi pouco. Faltou ensacar de cinco…

_Pelo menos venceu. Pior o meu, que perdeu no apito. Nem esse prazer eu tenho mais…

Foi a deixa que faltava_ Por falar em prazer, e aí? _ quis saber Romualdo.

_ Você é quem manda_ emendou o outro _ Uma esticadinha até que cai bem.

_ Esticadinha, nada. Noitada matadora. E é hoje. Pegar ou larga!

O amigo deu mais uma garfada. Das boas. E Romualdo continuou_ Abriu uma casa nova. Assim de mulher gata. É só escolher e pedir pra embrulhar_ rindo alto, satisfeito da própria piada.

O outro, acessando seu iphone, coçou a barbicha rala e ponderou_ Sei não…

_Sei não, o quê, “rapá”?

_Aquário (você é aquário, não é?). Está escrito aqui: Vênus deixou seu signo para trás. Dia pouco auspicioso para conquistas e envolvimentos…

_Pare com isso, ô, bobão_ ralhou, Romualdo_ Tô falando de bunda e vem você com papinho de comadre. Quando quiser que leiam minha mão, eu te chamo.

_Depois não diga que não avisei_ muxoxou o colega de mesa.

_Não amola. Te pego às onze. Cada uma…

Antes das doze badaladas, os dois já pipocavam animados, chacoalhando entre as rodinhas de modelos, patricinhas e descoladas. Para onde olhassem, elas eram magras, altas e lindas. Umas mais. Outras menos. Mas ainda assim, lindas. Numa média de fazer lobo-bobo salivar.

Pareciam abelhas no mel. E adivinhem quem era o potinho doce da rodada? Ele, mesmo. Romualdo. Nem sabia por onde começar _É o cheiro_ disse ele ao amigo_ Sente aqui: essência de macho-alpha-pegador. Elas adoram!

Uma morena de um lado, uma loira do outro e de cara no decotão da terceira. Romualdo era só pose. O rei da conversa mole. O cara certo. Fino trato e gentileza, em abundancia e a seu dispor.

E a noite seguia. Ele se exibindo. Elas suspirando. Ê, delícia!

Foi quando um Ooooooi se materializou, meio que vindo do nada. Ele não tomou conhecimento. Ela insistiu. Novamente_ Ooooooooi…

De rabo de olho percebeu o rosto ligeiramente familiar. Feio. Mas ainda assim, ligeiramente familiar. Destoante daquele oásis de charme e appeal.

Outro Ooooooooi indicou que o arenque dessalgado não ia arredar pé. Melhor atender aquele telefone. Mas era tarde. A ligação já caíra na secretária _ Lembra de mim?

Na verdade, vagamente. Mas achou por bem não entregar. Nem estender. Talvez ela cansasse e fosse assombrar em outra freguesia.

_Sou eu. A Cici.

Que câimbra_ Ah. Oi. Cici _ olhos curiosos se voltaram para os dois.

_Você falou que ligava. Fiquei esperando. Semanas_ a essa altura, a morena já se desvencilhara dele e procurava outro interlocutor. Um mais disponível. E que ligava quando prometia.

De homem dos sonhos a canalha num rasante.  Foi a vez da loira ir embora. Sobrou só a do decotão. E a feiosa entre eles. Ali. Parada. Olhando.

_ Então, Cici, tudo bem como você? _ tentou contornar

_ Tô ótima. E você?

A do decotão sentou para assistir. De camarote.

_Sei. Sorte te ver aqui…

_Sorte nada. Insistência mesmo. Nem imagina a dureza que foi te achar. Só hoje já fui ao Mokai, Clube A, 3P4, Pacha

Ai. Ai. Ai. De onde saiu essa encrenca, se perguntava ele. Sabia que o álcool induz a erros. Alguns homéricos. Mas isso já era ridículo. Estava prestes a perder a peituda também.

_Será que tá certo? _retomou ela, insistente.

_O quê?

_Meu número. Quer conferir? Vê aí. Vai ver não adicionou o nove antes do…

_Tá certinho. Tenho certeza. Deu ocupado. Foi só isso…

_Jura? Engraçado _ e pensando mais um pouco_ Ninguém me liga. Fora a tia Ana. Ou o tio Pedro. Mas esse, só a cobrar_ e continuou_ Deve ser a operadora. Posso mudar. Qual é a sua?

Cadê a do decotão? Gente! Cadê a do decotão?

Da essência de macho-pegador, sobrou só o bodum de pilantra-canastrão. E esse ninguém queria. Só a Cici.

Então era isso. Fim de festa pro senhor Romualdo.

Amanhã trabalharia até mais tarde. Emendando viagem longa em muita correria. Balada, agora, sabe lá Deus quando. Mas, dessa vez, estaria preparado. Checaria tudinho: búzios, astros, runas e tarô. Não que acreditasse muito nesses coisas. Mas prevenir ainda é melhor que remediar. Pois pra encosto que encrua, não tem descarrego que chegue. Aí, meu filho, só rezando muito. De joelhos. E no milho! Cruzes…

Coisas de Casal

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_ Precisamos conversar – era ela. De novo.
_Sei.
_É bom saber, mesmo! O trem tá feio pro seu lado. E não pense que vai me levar no bico. Não dessa vez!
_Huhum.
_Huhum, vírgula, Sr. Luiz Alfonso Ornellas e Bragança.
_ Que foi agora? Eu é que não fiz nada.
_Ah! Como vai, Senhor Nunca Faz Nada? Começava a sentir sua falta – respondeu, atrevida.
_Ai. Ai – resmungou ele, tentando fugir ao cerco que apertava.
_ Ai. Ai. O quê?
_ O que, o quê?
_ Eu é que pergunto. Quiéquitá pegando, hein? Fale. Mas abra o peito. Sem medo de ser feliz.
_Quer saber? Nada.
_Como assim, nada?
_Nada. E ponto final. Sei muito bem como isso termina. Então, não conte comigo. Se quiser: F-A-L-E S-O-Z-I-N-H-A!
Disse isso e saiu. Ela precisaria correr, caso quisesse continuar brigando.
_Por que tem que ser assim? Do seu jeito. Sempre – ela ainda tentou esticar.
De retorno só a melodia que ele assoviava. Baixinho.
_Não faça isso, está me ouvindo?
Não. Ele não estava. Ou até estava. Mas jamais assumiria. Coçou as costas, trocou o pijama e passou através dela, procurando algo para ler (tinha sempre uma revista à mão, estrategicamente posicionada, pra situações de perigo como essa).
_E a gente? Fica como? – insistiu ela. Esvaziando, pouco a pouco _ Depois de tudo, acho que você nem liga mais pra mim _choramingou, ressentida.
_Sabe o que eu acho? Que é hora de dormir. Depois a gente fala. Prometo.
_ Como prometeu ontem. E antes de ontem. E antes de antes de ontem. Não, meu amigo. Muito obrigada. Não vou dormir. Mesmo se quisesse. Não posso. Não consigo. Nem em séculos – catou de lado seu travesseiro (aquele bem molenga, de infância) e marchou resoluta, rumo ao quarto ao lado.
_Dorme você. Vou zanzar por aí. Ver se esfrio a cabeça. Tô brava demais pra parar. Magoada demais pra parar. Mas quem liga, não é mesmo? – teve ainda tempo prum último beicinho _ E daí, se nem vou pregar o olho? E daí, se amanhã começo cedo? E daí, se nem sei mais avaliar o tamanho do estrago. O quanto dói. Ou incomoda (fungou). Culpa minha, eu sei. No final é tudo, sempre, culpa minha.
Ele ouviu quando a porta bateu. Decidido a não mover um dedo. De jeito nenhum. Nem por decreto. Também, pudera. Quem mandou escolher uma mulher assim? Tão difícil e empacada. Agora, aguente. O pior é que ela sempre foi assim. E não muda. Nunca. Raios! Bufou e Revirou. Mais uma vez. Uma magrela-mandona, isso sim é o que é. Com mais vontade que bunda. A mesma, depois de todos esses anos. Sem tirar nem pôr. Ah, essa danada…
Riu. Pronto. Ferrou tudo. Sabia que iria ao resgate. Afinal, não havia motivo. Nem culpa. Sabem como é. Dia de cão. Quando tudo dá errado (nada haver com ela, mas a gente fica mexido). E, quando viu, estava no jeito, virado no avesso do capeta.
Imaginou a pobre. Amarfanhada num cantinho. Rodando de lá pra cá. Amuada. Chorando, até. Triste pelo colo que faltou. Pelo mimo, que ele (o monstro), não teve saco de dar.
_ Olhe, benzinho – disse ele, baixinho, enquanto abria a porta, ressabiado.
Mas ela já dormia. E roncava. Boca aberta e tudo. Cabeça despencando pra fora da almofada.
Não ia dormir, né? Nem em séculos. De jeito nenhum. Sei. Tá…
Não tinha nem sombra de dúvida. Depois de todos esses anos, ela continuava a mesma. Sem tirar nem pôr. Ah, essa danada…

O Velório

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Dona Cotinha é assim: velhinha simpática. Tipo mignon. De passinhos curtos e bolsinha de mão à frente do corpo. Fofa, eu diria. O problema todo é a boca. Uma tramela aberta que não fecha por nada. Nunca. Com pitaco engatilhado pra tudo. Dia e noite. E, justo hoje, não seria diferente.
Confere o nome na placa. Memorial Golden Gate. Isso mesmo.
Dirige-se a mocinha da recepção.
_ Sabe do Alfredão?
Olhar de estranheza, seguido de resposta reticente, Deixe-me verificar. Alfredo Caldas Fontes?
_Pode ser. O caixão é grande?
Silêncio do outro lado.
_Deve ser ele _ conclui a senhorinha, que segue manquejando escada acima.
Salão Oval. Andar superior. Deve ser aqui. Espaço imponente, lotado de amigos e parentes.
Aproxima-se de uma moça que funga alto, dando logo um jeito de engatar conversa _Conhece o falecido, é? De onde? Ah, do trabalho. A minha neta também. Eram muito amigos, sabe? Gente boa esse Alfredão. Gostava de todo mundo. Bom, quase. Do chefe é que não gostava. Mas também, gostar de um tipinho desses, como? Não é mesmo?
Nisso, um senhor fortão, de olhos avermelhados em função do choro contido, vira em sua direção. Era o chefe do Alfredão.
_Ah, é o senhor, é _ disse ela _ Fez o que fez ao pobre em vida, agora vem paparicar o defunto. Morreu já era, meu filho. Mas não fique chateado, não, viu? Ninguém gosta de chefe, mesmo. E se falassem de mim, metade do que diziam do senhor, eu também ficaria uma pimenta _ dá de ombros e sai. De fininho.
Encosta-se na mulher ao lado do caixão e sorri _ Ah, é a viúva? Que bonitinha, gente! Mulher moderna, benza Deus. Eu, no seu lugar, nem sei se estava aqui. Essa história de chorar homem dos outros, não sei não. Mas fazer o que, né? Amor é isso. Tanto faz se é a primeira, ou a segunda, ou a … Eu é que não entendo! O que leva um homem, com uma mulher inteirona assim, a fazer uma coisa dessas?
E segue falando, sem largar o osso_ Bem que eu disse! Mas que diferença isso faz, não é mesmo? Claro que sei (todo mundo sabe). Filho com secretária é difícil esconder. Um ou dois, a Martinha, minha neta, é quem tem os detalhes…
A mulher, agora aos prantos estourados, desfalece de vez sobre o finado. O caçula, que a tudo ouvia, marcha resoluto em direção a um grupo de mulheres. Ali. Bem pertinho do café.
Danou-se. Bastou um resmungo torto do chefe do Alfredão pro primeiro sopapo abrir os serviços. Confusão armada e o pau correndo solto.
Dona Cotinha faz uma reza. Curta. Benzendo e boquejando. Credo! Muito confuso, esse povo do Alfredão.
Trombou com a Martinha quando saía.
_ Vó, onde você estava?
_No velório do Alfredão.
_Que Alfredão, vó? É Marcão. E quem morreu foi o tio dele. Mas vamos lá. Estão todos preocupados com a senhora. Dê a mãozinha aqui. Vamos descer…

A primeira noite de um homem

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Tem coisas que incomodam. Mais que cisco no olho. Virgindade estendida, por exemplo. No caso dele, então, nem se fale. Mais de trinta. Homem feito. Barbado. E, nada.

_ Ah, não, Creusa. Pra mim, chega! Bastou.

_Também não é pra tanto – correu ela ao socorro _ Virgindade, hoje em dia, é diferencial. Ainda mais, num homem.  Você é uma preciosidade. Um diamante bruto. De um metro e setenta e cinco.

_Fácil pra você falar. Que é rodada (e bem feliz, diga-se de passagem). Mas, num macho? Sem a menor condição – nada o demovia. Estava decidido _ Em todo caso, resolvo isso agora. Ande! Vamos! Que já perdi o jeito e a paciência…

_Ãh?

_Qual o problema? Fica tudo em família. Além do mais, dispensa daquele trololó todo: não preciso elogiar, dormir de conchinha, nem ligar no dia seguinte. De quebra, com a grana das flores, ainda pago o chope. Que tal? Não é lindo?

_Cê tá doido, é?

_Ah, vai. Quebre essa. Por favor. Se não pela amizade, por dó. Ou pena. Pra mim, tanto faz.

_Esqueça! Nenhuma chance. Cai na real, homem: vá namorar. Achar alguém com quem sair. Credo. Que encosto…

 Seguiu tentando. O problema é que não emplacava. Queria amar primeiro pra fazer depois. Foi escolher demais, ficou na esteira. Macho não faz cera, faz sexo. E quando decidiu correr, deu n’água. Começaram os desencontros: era um tal de “Agora que dá, eu não quero”, com “Quando eu quero, não posso” que vou te contar uma coisa.

E assim foi sumindo. Afora a compleição mirrada, sofria, também, de surtos alérgicos constantes. Vivia fungando e maldizendo. Se não era rinite, faringite. Depressão. Ou embolia pulmonar.

Mas, cá entre nós, tem guria que não ajuda! Experimente, você, no auge de uma crise aguda, sair com uma criatura marinada em Phebo Lavanda.  Tem quem use Alfazema. Ou bergamota. Pior é baunilha com canela (dá vontade de besuntar e guardar numa forminha). Mas, o tiro de misericórdia ficava por conta do fatídico Leite de Rosas. Ui! Constipava só em pensar. Ainda bem que virou enfeite, de penteadeira de avó. Assim, podia voltar a sair e farejar. Sem medo de ser feliz.

Melhor focar. De volta à listinha de contatos. A primeira a topar, vale. E foi a Ana.

Saíram. Ela de vestido novo. Sapato novo. Casaquinho. Meia. Enfeite de cabelo. Tudo novo. Nele, de novo só a cueca. Vermelha, cavada e benta de terreiro (ouviu dizer que dava sorte).

Ela bem que queria. Mas, na hora H, travou. E dá-lhe vinho pra alinhar e restabelecer. Mandou descer a adega inteira: Malbec, Shiraz e o capeta. Levou tempo. E ficou caro. Mas funcionou. A tensão inicial foi embora. Como se tirada com as mãos.  O problema foi deixar, em seu lugar, um enjoo daqueles. Fenomenal. Digno de final de copa do mundo. Mas, como falar em campeonato, com nêgo que nunca saiu da reserva?  E que hoje, mais uma vez, viu a bola quicando. Lá pra longe. Próximo a entrada dos vestiários. Isso mesmo: entre nosso viril perna-de-pau e a goleada de sua vida, havia um banheiro. E, nele, uma privada. Que devia estar imantada (só pode).  Aquecida e terapêutica. Pois foi lá que Ana passou a noite. É, suspirou ele, Zero a zero. Pra variar…

Voltou pra casa. Com o carro sujo e ainda mais contrariado.

Saiu na noite seguinte. E na seguinte da seguinte. Até atracar numa quina de bar. Ressentido da vida e da sorte. Foi quando uma jovem perguntou-lhe as horas.

_Quinze pra uma _respondeu, emendando na sequência _ Você bebe? Não? Que bom. Acabei de lavar o carro e o banheiro. Então, me diga, seu nome é? Ah, tá. Legal. Olhe só: sou gente boa. Moro perto. Sozinho. Meu apê é bacaninha. E tô muito a fim de levar você pra casa. No seu lugar, aproveitava. A essa hora, cê não arruma nada melhor. Então, podemos encurtar essa conversa e ir logo ao que interessa?

O bofetão foi certeiro. Sonoro e indisfarçável.

Surtou geral. Precisava de alguém. Na falta de parceira, apelou foi pra amiga. Sobrou pra Creusa, é claro.

_ Sou um poste. O último meio-macho-virgem da face de terra. E, o que é pior, vivo! – zanzava de cá pra lá. Inconsolável _ E pra quê? Me diz?  Enfeite por enfeite, melhor trocar num laço. Ou abajur. Que dá no mesmo – e seguiu repetindo. Mareado _ Ô, sina, gente! Ô, sina!

Ela ainda tentou interpor agravo, mas acabou rendida. Disposta a pôr um fim aquela cena toda.

_Tá certo. Tá certo. Também não é pra tanto – e acrescentou, com ternura_ Vamos logo com isso, que não tenho a noite toda.

Ele, por um instante, duvidou do próprio entendimento _ Você? Mesmo? Tem certeza?

_Não faça com que me arrependa – respondeu ela, num sorriso.

A ele, faltou chão. E coragem. Mal conseguia aprumar. Suando mais que chaleira. Ela percebeu e foi logo despachando. Prática que era nessas coisas.

_Tome. Pegue, aqui. Limpe as mãos e o rosto. Essas toalhinhas são tiro e queda.

O fato é que sossegou. Ao simples toque perfumado em sua pele. Sentindo-se cada vez mais amparado. Como se algo familiar o envolvesse. Lembrou dos tempos de menino. Dos cheirinhos suaves da infância. E sentiu saudades. Em especial, da avó.

_Ô, Creusa. Que cheiro bom é esse?

_Leite de rosas.

Tarde demais. Vertido ao chão, ele não ouvia. Nem enxergava. Na mais completa apneia _A… ler… gi… a… – ainda conseguiu dizer. E sucumbiu.  

Ô, hominho zicado, pensou ela, que corria atrás de um telefone. Tinha que ligar pra alguém. Bombeiro. Polícia. Pai de santo. Eu, hein…

A quase viúva

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Cismou que morria. Pode?
_Deixe disso. Você está ótimo – rebatiam os amigos.
_Que nada – retrucava o tinhoso_ Olhe só a pele. Isso lá é cor de gente? E o tanto que zonzeia, que pinica e que cutuca? Eu, hein. Não sei não…
Hora a cabeça. Hora o pescoço. Cada dia uma bossa. Um algo que doía. Ou um troço qualquer engripado.
Mas, no fundo, era um bom homem. Desses que o coração não cabe direito no peito. Por falar nisso, estava, no momento, indo ou vindo de lua de mel. Terceiro, ou quarto, casamento. Dessa vez com a Ornela. Vinte e tantos anos mais nova.
Que pena. Justo agora que começava a bater pino, diziam os mais chegados.
Deu de ombros. E começou a despachar. Numa pressa de finado. Tratando logo de encomendar um vice. Um suplente gabaritado e à altura de sua amada. Mas onde encontrar o eleito?
Com os inchaços abdominais crescendo e apertando, não teve outra opção: melhor acelerar as buscas. Espremendo e revirando. Fuçando, nêgo-a-nêgo, cada qual que lhe passasse ao lado.
Não escapou ninguém: do plantonista ao residente. Do enfermeiro ao manobrista. Até topar com o Izidoro. Aquele, do elevador de emergência. O ascensorista do pronto socorro central.
Agora era juntar lé com cré, e esperar ferver. Assim, ao avistar o moço, foi direto em afirmar:
_Eu? Vou do jeito posso. Aguentando como dá. Pior é você. Rapaz novo, boa pinta, vivendo por aí, jogado. Que nem cachorro sem dono – e não se acanhou em emendar _ Deixe de veadagem, Izidoro. Homem tem que se mexer. Arrumar alguém e sossegar.
Ao que o outro reage prontamente.
_Tô sozinho não, seu Souza. Tenho a Deus. E a igreja.
_Igreja salva e consola. Ponto. Já querência de carne, é mais embaixo. E pra isso não tem reza, nem novena, que acuda ou acalente _ era a deixa que faltava _ Do céu cuido eu, que sou velho e parto logo. Mas, você? Tenha a santa paciência! Tem que casar, Izidoro. C-A-S-A-R!
Cansado do teretetê (e antevendo o agravamento de novas crises) o pseudofalecido parte pro tudo ou nada.
_ O caso é o seguinte: morro por esses dias e não quero saber de nêgo lambão bulindo na minha cuíca. É pegar ou largar. Ornela é uma princesa. Cuide dela pra mim, que te deixo tudo que tenho.
_Ai, seu Souza, não sei não…
_ Tá surdo, ô, infeliz? _bradou o homem, suando e revirando_ Ela é linda dos pés ao pescoço. Uma tetéia, cê vai ver! Mas o próximo marido, esse, escolho eu. Aqui, malandro não trisca, nem por cima do meu cadáver.
Chegaram ao andar de exames. Bem quando seu Souza, aflito, fez a proposta final _ Amanhã volto com ela – e sumiu. Amparado por mais dois.
No dia seguinte, dito e feito, Ornela veio a tiracolo. Com o marido no encalço. Azucrinando.
_ Não, não e não. Sozinha é que você não fica – achou por bem advertir – Se fosse feio. Ou encostado, ainda vai. Mas é moço-novo. E crente. Então largue a mão de ranhetice! Que coisa…
Entraram. Seu Souza à frente, arrastando a moça. No elevador apinhado, empurrou um sobre o outro. E esperou. Bem manso. Observando o efeito do trabalho de semanas.
O sem jeito era mútuo. Palpável. Ficaram ali. Roçando braço com perna. E agora? Bonita ela bem que era. Se bem que ele não ficasse atrás. Então tá. Ruim é que não havia de ser.
Percebendo o ponto e a fumaça, o velho voltou à carga _ E então? Negócio de pai pra filho, hein?
Dessa vez não houve contestação. Ninguém falava. Nem piscava. Comprimidos e fascinados que estavam diante da coisa toda.
Era chegada à hora da decisão. Seu Souza, em pleno alvoroço, precisou correr. Deixando os dois para trás. Colados e fervendo. Sem saber, ao certo, nem por onde começar.
Já na consulta, gemendo e chiando, o pobre esperava pelo final. Que veio. Num copinho opaco e amargoso.
_Pronto. É só aguardar.
_Quantos dias, doutor?
_Meia hora.
O outro desmorona. Como assim? Tão já?
_Isso. Se muito. Agora vê se aprende: pimenta e feijão, não. Já lhe disse. E não vou repetir.
_Ãh?
_Gases, seu Souza. É isso que lhe acomete.
_Então não morro hoje?
_Disso? Nem hoje, nem nunca. Posso garantir.
O ex-finado não se continha. Ansioso que estava em dividir a novidade. Ai, caraca! Lembrou da mulher. Depois do Izidoro. E correu. O mais que pôde. Chegou bem na hora. Do bico. E teriam se beijado, loucamente, não fosse um soco certeiro, arremessando o moçoilo jardas além. Que ficou por lá mesmo. Estrebuchado. Sem saber de onde veio o toco, que lhe atingiu em cheio nas vergonhas e vontades.
_Mas, benzinho…
_Nem mais, nem menos, Ornela. Isso é pra aprender a não mexer com a mulher dos outros.
_E aquela história toda de…
_Coisa à toa de defunto!
_E daí?
_Daí que eu tô vivo, criatura. E cê nem sabe o quanto!
Foram pra casa. Ele, feliz da vida. Sarado e consertado.
Nem percebeu que a moça murchava. Abatida num mal repentino, já em estágio avançado. Infectada definitivamente. Acometida de um bicho secular e virulento. Desses entranhados, e bem difíceis de curar.