Com que letra eu vou

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Não sei culpa de quem. Se do sono, que andava atravessado. Ou da turbulência, chacoalhando minhas ideias. Só sei que por um instante comi mosca. Ou melhor, letra.
Já era bem tarde. E eu, mesmo depois de três filmes e umas vinte rezas, seguia pregada. Contando os sacolejos, quietinha e amassada, lá no fim do avião. Foi quando, num relance, descobri no mapa de bordo (aquele onde a gente se acaba quando não tem mais posição, opção, nem paciência) o acidente geográfico mais idílico do planeta.
Falha de Romance. Foi esse o nome dado (ou ao menos lido) para um pontinho de nada, acomodado sabe lá Deus como, num mundaréu de água do Atlântico.
Mas o momento ternura durou pouco. Não era Romance. Mas, Romanche. Isso mesmo. Um H, sem som e sem graça, mudou tudo. E me fez esquecer de vez os devaneios cartográficos pra focar novamente em mim. No quanto os detalhes, ou as letrinhas, podem mudar o curso de uma história.
No meu caso até que foi pouco. Por um E, de Luciane, ao invés de A, de Luciana, deixei de ganhar música, composta e cantada pelo rei. Se não sou fã, nem sei a letra, pouco importa. O fato é que cresci sem trilha. O que faz toda a diferença. Ainda mais quando se é mocinha e sonhadora.
Depois vieram os desencontros e as fichas mal preenchidas. Já fui chamada de quase tudo. Lucilene. Lucivalda. Christiane. E adianta reclamar? Somos todas vítimas de um A a menos. Sem direito a verso. Nem conto. Música, então, nem pensar!
Tem ainda o caso daquele bebe lindo. Forte. Cheio de vida e possibilidades. A uma canetada de distância do sucesso. Bem quando um fiu-duma-égua de um tabelião (já repararam que tem sempre um abençoado pra por fubá na nossa sopa?) ao invés de Tom, registrou o outro como Tonho. E finou-se tudo. De predestinado, a ser quase sem atributos. Num rasante. Encurvou, minguou e encheu-se de perebas. Viu só que encrenca?
Então, veja se aprende: nome não enfeita, define. Sendo assim, agradeça a Deus se o seu tem menos que quatro Ys. E se não der samba, que ao menos não vire moda (ou terá que se preocupar também com o sobrenome. E aí, ninguém merece).
Como enquanto há vida, há conserto. Pra escapar desses e outros descarregos gramaticais, minha filha, nomeei Luiza. É claro. Simples e forte. Pode não ser clássico, nem tão pouco original. Mas com certeza é belo e o que é melhor, vem com música.
E se perguntada, faço questão de explicar: é com Z, como grafado pelo poeta. Aquele. O Jobim. Que de tanto entender de amor e de mulheres, com certeza fecharia comigo. Que Romance é muito melhor que Romanche. E antes uma ilha, que uma falha. E assim, mando às favas os puristas e chatógrafos de ocasião. Se alguém reclamar, dou de ombros. Afinal, um pouco de liberdade poética nunca fez mal a ninguém.

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