Sobrevivendo

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Nem sempre fui assim. Já pareci, e muito, com você. E com ele. E com ela.
Acho que tudo começou naquela fatídica noite, quando levaram meu carro.
Era um carrão. Zerinho. Cheirando a novo. Dizem que fui seguido. Só sei que tomaram. Ele foi. E eu fiquei. Ali. Arriado das quatro. Numa tristeza danada. Também, pudera. Escolhi. Planejei. Encomendei. Depois fiquei na torcida, quase vinte dias esperando pela entrega. E pra quê? Me fale. Mas não me pegam duas vezes. Vistoso? Esportivo? Comigo, não! Nunca mais. Migrei. Do importado arrojado ao popular bem comedido.
Levaram também. Dois carinhas. De moto.
Apelei. Fechei num duas portas. Usado. Só não tinha remendo. De resto, era uma lástima. De chorar.
E não é que roubaram? De novo.
Invoquei. Nem mobilete eu quis mais.
E pensam que acabou? Qual nada. Piorou. Tomaram foi tudo. Só que aos poucos. De fininho. Primeiro, o tênis pra corrida. Depois, a camiseta de marca. O relógio importado. Aí não parou mais.
Deixaram só a cueca. Não sei se por dó ou sacanagem.
Foi o que bastou. Radicalizei. Geral e sem volta.
Calção? Só doado. De preferência, puído. Camiseta? Sobra de campanha. De candidato desconhecido e sem a menor chance de emplacar segundo turno. Nem pra síndico.
Óculos de sol, nem pensar. Chinelo, só genérico. Desses que entortam e azedam facilmente.
Nem namorada tenho mais. São muito chamativas. Pra que tanto balangandã, meu Deus do céu? Não podia dar noutra coisa…
_Passa tudo – disse o meliante, dirigindo-se a ela.
_Ande. Faz o que o moço tá mandando. Acabe logo com isso – implorei, numa paúra da moléstia.
_Passar, o quê? É tudo plástico, ó! Bijuteria da mais safada – emendou ela.
O dono da pistola não se fez de rogado _ Esquenta, não, dona. Se a madama gosta, é sinal que a nega vai gostá também…
Afinal, onde estão os policiais truculentos e mal remunerados quando realmente precisamos deles? Algum? Qualquer um? Enfim, ninguém veio. E eu rodei. Mais uma vez.
Quer saber. Cansei dessa vida. Abri mão de tudo que brilhe ou faça inveja. Não atraio mais quem me ameaça. Na verdade, no estado em que me encontro, não estou pegando nada. Nem gripe.
Os amigos também rarearam. Mas quem liga? O negócio é ficar em casa. Onde não tem arrastão. E pra evitar sequestro, fui de um condomínio de luxo a um puxadinho modesto. Mas seguro. Sem frescuras. Tipo água de bica, luz natural e na encosta de um morro.
Dizem que surtei de vez. Que perdi a referência. Tô nem aí. Um dia dou o troco e apresento minha defesa. Até lá, vou tocando do jeito que dá. Pelo menos até o mundo sossegar e a gente ganhar fôlego. Será que demora? Tomara que não.
Enquanto isso, sigo de molho. Morte à bala? Só quando cárie virar câncer. Você eu não sei, eu quero é caducar de velho. Lotado em prega e ruga. Que nem maracujá azedo, esquecido no fundinho da gaveta.

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