Ziguezagueando

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Enjoava. Mareava. Enfim, quase morria. Qualquer coisa que rodasse e pronto.

Não servia nem pra bater claras. Pirueta? Só dopada em Plasil.  Mexer suco? Acompanhar curva de bola? Esqueça.

Labirinto virado, diziam uns. Abestada, diziam outros. Só sabia que azedava. E com que facilidade.

Assim passou a vida, até o dia em que casou. Logo vieram os filhos. E com eles o Mickey, a Minnie e os parques de diversão.

Disneyland.  Disney World.  Universal.  Beto Carrero. Festival da Uva em Itupeva. Qualquer que fosse o roteiro, estavam todos lá: as fritas, as filas e os brinquedos que giram e giram e giram.

Foi assim comigo. Com ela não havia de ser diferente.

Doze horas de voo e quando se deu conta, era tarde demais. Estava ali. Entrincheirada entre zilhões de atrações que iam, vinham, guinavam e arremessavam sem dó, nem piedade. Em ângulos e direções nunca dantes navegados.

Era insano. Quase indecente. Melhor retroceder. E alguém ouviu? Não, é claro. Tamanho a profusão de mamãe-você-prometeu que se abateu sobre a pobre. A pá de cal ficou por conta do marido (endividado até o último fio de cabelo):

_Nem pensar! Não pediu pacote? Agora vai. Em tudo. Tudinho, mesmo.  E sem reclamar.

E ela foi.

Começou a passar mal logo de cara. No carrossel da Cinderela. Ou seria da Bela Adormecida? (Ah, relaxe! São só teenagers desesperadas por um bom par. Troque a peruca e misture os vestidos, aí quero ver dizer quem é quem).

Piorou no Dumbo. Aquele lotado de bebês e crianças com menos de um metro. Todas felizes e gargalhando. Enquanto ela morria de medo, unhas cravadas na parede lisa do elefantinho.

Na Xícara Maluca da Alice, foi às vias de fato. Botando tudo pra fora.

_Mutter! Mutter! O que é aquilo? – perguntou a alemãzinha, que girava na caneca ao lado.

_Não tenho a menor ideia, minha fraulein. Mas aplauda, que deve ser performance – respondeu a mãe, enxerida e sem noção.

O brinquedo parou. A cabeça dela, não. Mas saiu em grande estilo. Praticamente ovacionada pelos gringos que custaram a dispersar. Adoraram os efeitos especiais. Quando morfou do verde-azia prum roxo-vou-sucumbir, pra voltar ao pálido esquálido de um fígado convulsionado.

Teve ainda o caso do café. E nem era dia de parque. Só shopping e compras. O que, é preciso admitir, também dá uma zonzeira danada. De qualquer modo, estava ela sentada bonitinha quando a coisa toda começou a acontecer. Ninguém sabe dizer o que desencadeou o surto, mas o bicho foi feio.

Fato é que começou a sacudir. Assim mesmo. Sozinha. Do nada. Com os braços alongados, pendendo hora de um lado, hora do outro. Até que a boca, então calada, resolveu entrar na brincadeira. E não satisfeita com um AAAAAAHHHHHHH, resolveu emitir também um UUUUUUHHHHHH. Com direito a grand finale: cabeleira voando solta e tudo o mais.

Até que ela quietou. Eles, não. Sempre eles. Os gringos. Aplaudindo e assoviando. Em pé. Teve quem pedisse autógrafos. Show de horror. Precisavam ter visto.

Desesperou. Como queria estar em casa. Se bem que faltasse pouco. Uma paradinha na CVS e estaria pronta pra viagem. Lista em mãos. Nada demais: seis Dormonides, meia caixa de Rivotril e três ou quatro Diazepans, só pra rebater.

Antes de subir a bordo, não se dando por satisfeita, meteu pra dentro duas garrafinhas de gin. Sem gelo. Nem choro, nem vela.

O marido, preocupado, quis saber quem olharia as crianças. Ela deu de ombros.

_Tem pai pra quê?  – e acrescentou – Quando pousar eu reassumo. Até lá…

Capotou. Agarrada a Deus e a dois saquinhos de indisposição. Afinal, a gente nunca sabe quando vai precisar de uma forcinha.

Ziguezagueando

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