Quem ama perdoa

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_Você não vem? _ era a voz dela, sumindo entre os travesseiros.
_Daqui a pouco _ ecoou ele, ducha afora. Sem ouvir o celular que zunia esquecido na mesinha de canto. E assim continuou, vibrando insistentemente, até que ela levantou pra atender.
Engraçado, não conhecia o número. Nem o DDD. Deu de ombros. E sem nada melhor pra fazer, começou a zapear. Fuçar, mesmo. Na maior cara de pau.
Logo o riso bobo deu lugar a cara feia. Bem feia. Só não tão feia quanto o sururu que veio depois. Tudo por causa de uma foto. Uma bendita foto recebida por SMS. Onde uma dona posava faceira. Metida num pijama que não era dela. Mas, dele. Afffff…
Ela não aguentou. Xingou. Esperneou. E pôs pra fora: a raiva e o marido.
No dia seguinte, no celular dela, chegou o primeiro torpedo, Quem ama perdoa. E no seguinte, à mesma hora, o complemento, Você me perdoa?
Assim, sucessivamente. Por meses e meses, repetindo, Quem ama perdoa. Você me perdoa? Quem ama perdoa. Você me perdoa? Quem ama. . .
Até que um belo dia, contrariando todos os prognósticos, eis que surge o tão aguardado retorno, Perdoo.
Encontraram-se mais tarde. Cheios de saudades. Pra retomar de onde tinham deixado. Virados um no outro. Feito unha e carne.
Até que ele, numa noite qualquer de pouco sono, começou a brincar no celular dela, que vibrou e vibrou de novo. Engraçado, não conhecia o número. Nem o DDD. Grandes coisas. E continuou a revirar. Fuçar, mesmo. Descaradamente
Até que o riso bobo deu lugar a cara boba. Pior que boba. Doente. Febril. Trespassada.
Tudo por causa de uma foto. Uma bendita foto recebida por SMS. Onde ela posava linda e descabelada. Metida num pijama que não era dela. Nem dele.
A briga foi medonha. Tamanha. Pior ainda que a primeira.
Separaram-se. Mais uma vez.
No dia seguinte, no celular dele, chega o primeiro torpedo, Quem ama perdoa. . .

Quem ama perdoa

Com que letra eu vou

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Não sei culpa de quem. Se do sono, que andava atravessado. Ou da turbulência, chacoalhando minhas ideias. Só sei que por um instante comi mosca. Ou melhor, letra.
Já era bem tarde. E eu, mesmo depois de três filmes e umas vinte rezas, seguia pregada. Contando os sacolejos, quietinha e amassada, lá no fim do avião. Foi quando, num relance, descobri no mapa de bordo (aquele onde a gente se acaba quando não tem mais posição, opção, nem paciência) o acidente geográfico mais idílico do planeta.
Falha de Romance. Foi esse o nome dado (ou ao menos lido) para um pontinho de nada, acomodado sabe lá Deus como, num mundaréu de água do Atlântico.
Mas o momento ternura durou pouco. Não era Romance. Mas, Romanche. Isso mesmo. Um H, sem som e sem graça, mudou tudo. E me fez esquecer de vez os devaneios cartográficos pra focar novamente em mim. No quanto os detalhes, ou as letrinhas, podem mudar o curso de uma história.
No meu caso até que foi pouco. Por um E, de Luciane, ao invés de A, de Luciana, deixei de ganhar música, composta e cantada pelo rei. Se não sou fã, nem sei a letra, pouco importa. O fato é que cresci sem trilha. O que faz toda a diferença. Ainda mais quando se é mocinha e sonhadora.
Depois vieram os desencontros e as fichas mal preenchidas. Já fui chamada de quase tudo. Lucilene. Lucivalda. Christiane. E adianta reclamar? Somos todas vítimas de um A a menos. Sem direito a verso. Nem conto. Música, então, nem pensar!
Tem ainda o caso daquele bebe lindo. Forte. Cheio de vida e possibilidades. A uma canetada de distância do sucesso. Bem quando um fiu-duma-égua de um tabelião (já repararam que tem sempre um abençoado pra por fubá na nossa sopa?) ao invés de Tom, registrou o outro como Tonho. E finou-se tudo. De predestinado, a ser quase sem atributos. Num rasante. Encurvou, minguou e encheu-se de perebas. Viu só que encrenca?
Então, veja se aprende: nome não enfeita, define. Sendo assim, agradeça a Deus se o seu tem menos que quatro Ys. E se não der samba, que ao menos não vire moda (ou terá que se preocupar também com o sobrenome. E aí, ninguém merece).
Como enquanto há vida, há conserto. Pra escapar desses e outros descarregos gramaticais, minha filha, nomeei Luiza. É claro. Simples e forte. Pode não ser clássico, nem tão pouco original. Mas com certeza é belo e o que é melhor, vem com música.
E se perguntada, faço questão de explicar: é com Z, como grafado pelo poeta. Aquele. O Jobim. Que de tanto entender de amor e de mulheres, com certeza fecharia comigo. Que Romance é muito melhor que Romanche. E antes uma ilha, que uma falha. E assim, mando às favas os puristas e chatógrafos de ocasião. Se alguém reclamar, dou de ombros. Afinal, um pouco de liberdade poética nunca fez mal a ninguém.

Sobrevivendo

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Nem sempre fui assim. Já pareci, e muito, com você. E com ele. E com ela.
Acho que tudo começou naquela fatídica noite, quando levaram meu carro.
Era um carrão. Zerinho. Cheirando a novo. Dizem que fui seguido. Só sei que tomaram. Ele foi. E eu fiquei. Ali. Arriado das quatro. Numa tristeza danada. Também, pudera. Escolhi. Planejei. Encomendei. Depois fiquei na torcida, quase vinte dias esperando pela entrega. E pra quê? Me fale. Mas não me pegam duas vezes. Vistoso? Esportivo? Comigo, não! Nunca mais. Migrei. Do importado arrojado ao popular bem comedido.
Levaram também. Dois carinhas. De moto.
Apelei. Fechei num duas portas. Usado. Só não tinha remendo. De resto, era uma lástima. De chorar.
E não é que roubaram? De novo.
Invoquei. Nem mobilete eu quis mais.
E pensam que acabou? Qual nada. Piorou. Tomaram foi tudo. Só que aos poucos. De fininho. Primeiro, o tênis pra corrida. Depois, a camiseta de marca. O relógio importado. Aí não parou mais.
Deixaram só a cueca. Não sei se por dó ou sacanagem.
Foi o que bastou. Radicalizei. Geral e sem volta.
Calção? Só doado. De preferência, puído. Camiseta? Sobra de campanha. De candidato desconhecido e sem a menor chance de emplacar segundo turno. Nem pra síndico.
Óculos de sol, nem pensar. Chinelo, só genérico. Desses que entortam e azedam facilmente.
Nem namorada tenho mais. São muito chamativas. Pra que tanto balangandã, meu Deus do céu? Não podia dar noutra coisa…
_Passa tudo – disse o meliante, dirigindo-se a ela.
_Ande. Faz o que o moço tá mandando. Acabe logo com isso – implorei, numa paúra da moléstia.
_Passar, o quê? É tudo plástico, ó! Bijuteria da mais safada – emendou ela.
O dono da pistola não se fez de rogado _ Esquenta, não, dona. Se a madama gosta, é sinal que a nega vai gostá também…
Afinal, onde estão os policiais truculentos e mal remunerados quando realmente precisamos deles? Algum? Qualquer um? Enfim, ninguém veio. E eu rodei. Mais uma vez.
Quer saber. Cansei dessa vida. Abri mão de tudo que brilhe ou faça inveja. Não atraio mais quem me ameaça. Na verdade, no estado em que me encontro, não estou pegando nada. Nem gripe.
Os amigos também rarearam. Mas quem liga? O negócio é ficar em casa. Onde não tem arrastão. E pra evitar sequestro, fui de um condomínio de luxo a um puxadinho modesto. Mas seguro. Sem frescuras. Tipo água de bica, luz natural e na encosta de um morro.
Dizem que surtei de vez. Que perdi a referência. Tô nem aí. Um dia dou o troco e apresento minha defesa. Até lá, vou tocando do jeito que dá. Pelo menos até o mundo sossegar e a gente ganhar fôlego. Será que demora? Tomara que não.
Enquanto isso, sigo de molho. Morte à bala? Só quando cárie virar câncer. Você eu não sei, eu quero é caducar de velho. Lotado em prega e ruga. Que nem maracujá azedo, esquecido no fundinho da gaveta.

Ziguezagueando

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Enjoava. Mareava. Enfim, quase morria. Qualquer coisa que rodasse e pronto.

Não servia nem pra bater claras. Pirueta? Só dopada em Plasil.  Mexer suco? Acompanhar curva de bola? Esqueça.

Labirinto virado, diziam uns. Abestada, diziam outros. Só sabia que azedava. E com que facilidade.

Assim passou a vida, até o dia em que casou. Logo vieram os filhos. E com eles o Mickey, a Minnie e os parques de diversão.

Disneyland.  Disney World.  Universal.  Beto Carrero. Festival da Uva em Itupeva. Qualquer que fosse o roteiro, estavam todos lá: as fritas, as filas e os brinquedos que giram e giram e giram.

Foi assim comigo. Com ela não havia de ser diferente.

Doze horas de voo e quando se deu conta, era tarde demais. Estava ali. Entrincheirada entre zilhões de atrações que iam, vinham, guinavam e arremessavam sem dó, nem piedade. Em ângulos e direções nunca dantes navegados.

Era insano. Quase indecente. Melhor retroceder. E alguém ouviu? Não, é claro. Tamanho a profusão de mamãe-você-prometeu que se abateu sobre a pobre. A pá de cal ficou por conta do marido (endividado até o último fio de cabelo):

_Nem pensar! Não pediu pacote? Agora vai. Em tudo. Tudinho, mesmo.  E sem reclamar.

E ela foi.

Começou a passar mal logo de cara. No carrossel da Cinderela. Ou seria da Bela Adormecida? (Ah, relaxe! São só teenagers desesperadas por um bom par. Troque a peruca e misture os vestidos, aí quero ver dizer quem é quem).

Piorou no Dumbo. Aquele lotado de bebês e crianças com menos de um metro. Todas felizes e gargalhando. Enquanto ela morria de medo, unhas cravadas na parede lisa do elefantinho.

Na Xícara Maluca da Alice, foi às vias de fato. Botando tudo pra fora.

_Mutter! Mutter! O que é aquilo? – perguntou a alemãzinha, que girava na caneca ao lado.

_Não tenho a menor ideia, minha fraulein. Mas aplauda, que deve ser performance – respondeu a mãe, enxerida e sem noção.

O brinquedo parou. A cabeça dela, não. Mas saiu em grande estilo. Praticamente ovacionada pelos gringos que custaram a dispersar. Adoraram os efeitos especiais. Quando morfou do verde-azia prum roxo-vou-sucumbir, pra voltar ao pálido esquálido de um fígado convulsionado.

Teve ainda o caso do café. E nem era dia de parque. Só shopping e compras. O que, é preciso admitir, também dá uma zonzeira danada. De qualquer modo, estava ela sentada bonitinha quando a coisa toda começou a acontecer. Ninguém sabe dizer o que desencadeou o surto, mas o bicho foi feio.

Fato é que começou a sacudir. Assim mesmo. Sozinha. Do nada. Com os braços alongados, pendendo hora de um lado, hora do outro. Até que a boca, então calada, resolveu entrar na brincadeira. E não satisfeita com um AAAAAAHHHHHHH, resolveu emitir também um UUUUUUHHHHHH. Com direito a grand finale: cabeleira voando solta e tudo o mais.

Até que ela quietou. Eles, não. Sempre eles. Os gringos. Aplaudindo e assoviando. Em pé. Teve quem pedisse autógrafos. Show de horror. Precisavam ter visto.

Desesperou. Como queria estar em casa. Se bem que faltasse pouco. Uma paradinha na CVS e estaria pronta pra viagem. Lista em mãos. Nada demais: seis Dormonides, meia caixa de Rivotril e três ou quatro Diazepans, só pra rebater.

Antes de subir a bordo, não se dando por satisfeita, meteu pra dentro duas garrafinhas de gin. Sem gelo. Nem choro, nem vela.

O marido, preocupado, quis saber quem olharia as crianças. Ela deu de ombros.

_Tem pai pra quê?  – e acrescentou – Quando pousar eu reassumo. Até lá…

Capotou. Agarrada a Deus e a dois saquinhos de indisposição. Afinal, a gente nunca sabe quando vai precisar de uma forcinha.

Ziguezagueando