Domésticas

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Já tiveram vários nomes e passaram por poucas e boas. Mas deram a volta por cima.  E, na interpretação daquela amiga empolgada, têm hoje em mãos: a faca e o queijo e o fiambre de peru.

De mucamas a domésticas. Aias e serviçais a diaristas e secretárias. De subalternas a verdadeiras rainhas do lar. Sim. Pois são elas que apitam. Entrando de sola para marcar.

Elas que cuidam da casa. Mandam no cachorro. Levam as criança a escola. Assistem seus primeiros passos e gravam as primeiras palavras.

Dependência de empregada há muito deixou de ser um espaço na casa.  Converteu-se em estado de espírito. Supurado.

Em casa somos todos. Dependentes confessos. Sem ela o marido não tem calças. As crianças passam fome e eu fico perdidinha. Recitando o mantra sagrado das desesperadas, enquanto vagueio pelo condomínio: Conhece alguém de confiança? E você? Conhece? Conhece alguém de confiança…

São um marco em nossas vidas. Sua entrada na família é momento de aflição. Será que vão se acostumar? Será que dará tudo certo?

Quando vão embora, a comoção é chocante. Será que vamos nos acostumar? Será que dará tudo certo?

Tem, ainda, aquelas que além da rescisão e do décimo terceiro proporcional, levam também certos mimos familiares na matula, sejam eles retratos, cartões desenhados pelas crianças ou mesmo maridos mais salientes. Coisa chata de lidar e mais ainda de explicar, principalmente aos pequenos (ou aquele vizinho-mala que vive se metendo onde não é chamado).

Como no dia que tentei ajudar uma amiga no sufoco (como sufoco, leia-se: duas crianças e duas semanas sem ninguém. Arrê!) e recebi dela uma desculpa mal-acabada, mais ou menos assim: Melhor, nem tentar. Afinal, não ia dar certo, mesmo. Ela não tem muito jeito pra coisa…

Só mais tarde fui entender que jeito, a fulana, bem que tinha. Até demais. Prendada além de qualquer conta. O problema é que os atributos da moça não se restringiam ao trabalho. Mas abarcavam, também, as formas e contornos exuberantes da muchacha. Juntando tudo: corpo de bailarina, coxa de ginasta e um traseirão daqueles, de passista! Aí, já viu, né? Quem conhece o gado, que cuide do pasto que tem.

Enfim. Minha amiga insegura continua no aperto. E sozinha. Cada dia mais alucinada. Enquanto a mocinha, aquela da indicação, mudou-se pra Massachussetts. Ganha em dólar e está estudando francês. Sabe como é, no final do ano, pretende viajar ao Canadá. Coisa à toa. De férias. Quinze dias. Nada de mais.

O pior sou eu, que no momento em que escrevo também estou desamparada. Minha auxiliar foi embora faz dias. Mas, antes que se ressinta, não. Ela não fugiu com o meu marido e nem vai ao Canadá.

Fui trocada por outra. Uma patroa mais abonada. Do dia para a noite. Sem direito a súplicas nem ranger de dentes.

Se pudesse argumentar, chegaria às vias de fato. Negociando redução de turno, melhorias do cardápio, pilates às segundas pela manhã e yoga às sextas à tarde. Apertando, incluiria até o marido no pacote (tenho amigas separadas há anos, que estão com uma tez linda! Parece que rejuvenesceram. Vai ver a cara das que perderam a empregada? Nem um mês e viraram caquinho: unha por fazer, cabelo por lavar. Eu, hein?).

De qualquer forma, preciso parar de escrever, pois, ontem, lavei fundo de meia até dizer chega e as juntas dos meus dedos doem. Oh, céus, e como doem!

Quem souber de alguém, por piedade, avise! Tenho as melhores referências do mercado. Sou boazinha, muito pouco exigente, arrumo minha própria cama e nem ligo se assistem TV ou se cochilam, assim, no meio da tarde.

Tá rindo, é? Nem sabe a quizumba que está minha vida! Dureza, viu? Fazer o quê. Cada qual que se coce e ajeite como pode.

2 comentários sobre “Domésticas

  1. Oi Lu , querida, abro o capítulo do nosso livro didático e o ponto de hoje é: Hipertexto e gêneros digitais. Blogs e E-mails. Trouxe uma turma de 1 ano do Ensino Médio na sala de informática para acessar o blog e ler teus textos. Agora li alguns que ainda não tinha lido e como sempre gosto muito do que escreves….bjs bjs fica bem Prof. Lia Colomé

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