Não Vale O Que Come

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Ele era assim. Desde sempre. Torto.

Seus relacionamentos mudavam com a lua. Não trocava de mulher. Zapeava. Sem parada. Critério. Ou predileção.

Enquanto os amigos casavam e sossegavam, ele, não. De um porto a outro. Até atracar na Afonsina.

_ Carambolas, justo a Afonsina? Não tinha outra pra escolher? _ perguntou um chegado.

_Não _respondeu, sem erguer os olhos da cruzada. E assim seguiu _Tipo de composto químico, seis letras _ não sabia nada de química. Nem física. O Português era tosco. A matemática, esqueça.  Enfim _Melhor tentar uma mais simples: sinônimo de anjo, oito letras. . .

Não dava pra entender. Nem bonita ela era. Mas era amiga. E era aí, justamente aí, que a porca torcia o rabo.

O amigo, com dó da outra, insistiu:

_ Pensa bem, rapá. Com tanta mulher dando sopa, tinha que cismar justo com essa?

_É madura.

_ Coroa.

_Grandes coisas _e seguiu falando, ainda atento as oito letras _ Mora bem. É resolvida. Paga o motel e a janta. Pedindo com jeito, ainda alivia o carro. . .

_Cê num tem vergonha, mesmo, né? Só falta querê deixar cueca pra quarar. . .

_ Não só lava, como passa e engoma que é uma beleza. . .

_ Engoma? Cueca?

_Ah, não me enche e diz aí: capital da Rússia, seis letras, acaba com U.

_ Você é um chupim, sabia?

_ Mas também contribuo.

_Posso saber com o quê?

_ Pronto atendimento, meu caro, com cobertura ilimitada. E as condições são as melhores do mercado. Mas sabe guardar segredo? Ela se amarrou mesmo foi no cafezinho. Coado na meia e cortesia da casa…

_ Você não tem vergonha, não?

_Dou assistência técnica. Não social.

_ Cê tá fora de controle. Isso sim.

_ Posso estar. Mas ela tem uma irmã.

_ Não pego coroa.

_ É a caçula. Mas o pedigree é de gente grande. Com casa herdada em Ilha Bela, carro na garagem e lancha na Marina. Mas não interessa, né? Então, ajude: animal que mora no mangue, dez letras.  Odeio palavras com dez letras _ fez uma careta _ Não sei nada sobre bicho. Nem mangue. E você?

_ Novinha?

_ Uhum.

_ E é bonita?

_Ninguém diz que é feia. E não se pode desprezar um casão com piscina, churras e campinho de society.

_Sei. . .

_ Semana que vem rola um solteiros-contra-casados. Final de campeonato. Mas acho que teremos que adiar. Falta um centroavante. Nos solteiros.

_Eu sou centroavante. . . E solteiro. . .

_ Nossa! Nem tinha pensado nisso. . . Vai amar o uniforme. E a zaga é de primeira. Hoje tem chopada. Lá na casa da Afonsina. Vai ficar felizona de te ver. Se virar cunhado, então. . .

_ Sei não, Clécios.

_ Larga mão. Te pego às oito. Agora some. Dê um jeito nessa cara. . .

_ Tá. Tá. . .Às oito. . . Inté. . .

Sossego, enfim _ Onde mesmo eu estava? _ voltou a morder o lápis. Sempre fazia isso quando pensava _ Vejamos. Cafajeste, sete letras. Essa é fácil. C-A-N-A-L-H-A. Se bem que C-L-É-C-I-O-S também cabe _ riu. Vinte pras oito. Melhor se vestir. Deixou a cruzada de lado. Terminaria na volta. Pelo menos, dessa vez, o assunto ele dominava.

 

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