Eu nasci assim…

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Que mais posso dizer? Sou compulsiva, sim. De passaporte renovado e carteirinha carimbada.

Primeiro foram as coleções de papel de carta. Depois vieram os pacotinhos de figurinha Amar É e os ovinhos de Fofolete, passando, é claro, pelos anéis de bala, as tatuagens de chiclete e os saudosos doces de feira (quem comeu Dadinho e Cigarrinho de Chocolate, sabe bem do que estou falando).

Não tinha semanada que desse pro cheiro, nem mesada que bastasse. Mas nessa fase tudo é bonitinho. Afinal, ninguém põe vista séria em ferinha banguela e de sardas. Pois é.

Comecei abrindo o cofrinho dos primos, irmãos e molecada da rua. Depois foi a vez da carteirada nos adultos. Não respeitava ninguém: pai, mãe, avozinha caduca ou tia gente boa. Não tinha jeito. Nem opção. Era mais forte que eu.

Os desfalques cresciam a passos largos. Na medida exata dos meus sonhos e projeções. Quem descobria já não achava tanta graça. E meus relacionamentos foram dando n’água.

Foi assim com as amigas. Ficaram mesmo as velhas de guerra. Ou as pobres. Das quais não tinha mais o que tirar. A não ser conforto nas horas de rebordosa.

Foi também com os namorados. Presentes não empolgavam. Ganhar não resolvia o problema. Tinha que ser comprado. E por mim. Em cheque, cartão ou dinheiro. Na chincha ou a perder de vista. Tanto fez como tanto faz.

E sem essa de que melhora com a idade. Na verdade, aperfeiçoa-se um estilo. Criam-se hábitos. Tendências. Mas uma vez compradora irrefreável, irmãzinha minha, aquele abraço.

Maridos? Já quebrei três.

Se casei de novo? Sim (não perguntem como, mas esse jurou que me conserta. Concordo só para não dar Ibope. E toca o rolo).

De uns tempos para cá, deram para me coibir. Todos eles. A família inteira. Irmanados. Nada pode. Tiraram-me tudo: o Diners, o Visa, o American, o Master e a vontade de viver. Até a pendura do milho, naquele carrinho lá no calçadão, eles cortaram. Mas não há de ser nada. Ainda tenho fé nos homens (principalmente naqueles que trabalham com carnezinhos e boletos sem comprovação prévia de renda).

Dia desses, certos de uma provável melhora, levaram-me ao bairro hospitalar. Com suas lojinhas tristes. Onde só se vendem coisas para médicos, UTIs ou para quem está, como vou dizer, bem sambadinho e precisando de uns reparos mais apurados. Não era, nem de longe, algo que pudesse descrever como um centro comercial ou algo parecido. Então, pude ir. Sair finalmente de minha imposta clausura (caso contrário, não me levam, não. Fazer o quê? Êta, familinha braba essa minha).

Pode descer, disseram. Compre uma bombinha para asma e um bocal novo para o inalador do Tavinho. Tudo certo? Tudo certo. Lá fui eu ladeira abaixo.

Saí num pé. Voltei no outro. Carregada de volumes e pacotes _ O quê? Como? _ Pasmaram.

Tive que concordar. Encher o porta-malas rebatido de uma  Zafira, num lugarzinho chinfrim assim, foi difícil até para mim. Mas passei por uma loja para diabéticos, outra de cintas modeladoras e aí. . .

_Mas ninguém é diabético na família!

_ Ainda não _ intervim previdente. E ademais, havia aquelas fraldas geriátricas em promoção e como a mamãe já está com mais de setenta eu pensei que…

Cortaram tudo. Agora de vez. Nem a velório eu vou mais (contei de quando estourei a barraca de flores e comprei jazigo para o pessoal todo lá do escritório? Só não encaminhei espaço no céu por falta de corretor disponível na ocasião).

Meu passeio preferido tem sido a casa da minha irmã caçula, a Verinha. Acabou de ter outro bebê. Um menino. Mas meu xodó é mesmo a menininha, que acredito deva estar beirando bem uns quatro anos.

Às vezes, fico olhando para ela e tentando achar algum traço que me represente. Um pouco da tia descompassada naquele pedaço de anjo que tanto amo e não canso de beijar. Deixe ver: olhos rasgados da mãe. Nariz de bolinha do pai. Boca larga da avó. Da tia, neca. Nadica de nada.

Bem nessa hora, a Verinha reclama:

_Estão vendo só essa menina? Um horror. Não para nem um minuto. Nem para ver TV a bicha sossega. Tagarela mais que a boca. Que nem disco furado. É o tempo todo compra isso pra cá e dá aquilo pra lá. Tudo que vê, quer. Ninguém aguenta essa garota. O pai que não abra logo o olho…

Entre satisfeita e orgulhosa, pensei cá com meus botões, bingo! Eu sabia. Sempre soube que tinha algo. Essa menina promete. Essa guria vai longe…

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