O Festão

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_Alô? Seu Manoel?

_Sim?

_ Sei que é meio tarde pra ligar, mas é a Meggy, do cerimonial. O senhor pode falar?

_ Poder eu posso, mas acontece que…

_Ótimo. É o seguinte: estamos a menos de um mês do casamento da sua filha e são tantas as pendências que começamos a ficar preocupados.

_ O caso é que…

_O caso é que já perdemos vários dos melhores fornecedores. Se não agirmos logo, sua filha não terá nem bolo.  Já viu casamento sem bolo, seu Manoel?

Ele ainda tentou, em vão, se fazer ouvir. Queria avisar, dizer que aquela ligação toda não passava de um grande equívoco. Mas ela não deu chance. E ficou o Dito pelo Benedito. Com ele ali, ouvindo. Enquanto ela falava e falava e falava.

_Tem a questão da música, das bebidas, do cardápio. Tá tudo atrasado, seu Manoel!

Era a oportunidade que faltava. Poderia ter desligado. Mas preferiu entrar na dança, Ok, disse ele.

_ E não adianta protelar. Semana que vem é a… Que foi que o senhor disse?

_ Ok. Por onde quer começar?

Passada a surpresa inicial, ela retomou o ritmo e a ladainha _Que tal, pelo prosseco? Sei que concordamos nuns cortes, mas sem brinde não dá. Assim, desculpe se insisto, mas é que…

_ Faz sentido.

_Faz?

_Claro. Anote aí: Brut. Importado. Geladinho. E a noite toda.

_A noite toda? E o que faço com o vinho?

_Dobre _ rebateu, empolgado.

_Dobrar?

_ Acha pouco? Então, triplique. E o uísque?

_Que uísque?

_Aquele. Vinte anos. Puro malte. Com toques de caramelo e frutos secos.

_ Mas o senhor disse que…

_Não importa o que eu disse. Sirva. Sem dó, nem piedade.

_ Deixe comigo. Sobre o buffet de massas, o senhor quer…

_Buffet? De massas? Esqueça!

_Mas o senhor…

_Quantas filhas você disse que eu tenho?

_ Que eu saiba, só uma.

_ E você quer, que no casamento da minha única filha, meus amigos peguem fila pra comer gravatinha?

_ Bom, é que…

_Fora de cogitação. Anote aí: camarão pistola de entrada e medalhão de filet au poivre como prato principal. Ou melhor, tem vitela? Então, troque. Com purê de pupunha e risoto de trufa branca. Uhmmmmmmm!

Silêncio do outro lado. Foi quando ele inqueriu, Acabamos?

_ Não exatamente. Tem a música da festa pro senhor decidir…

– Essa é fácil: quero banda. Sei lá. Pensei no Jota Quest. Com show de mulatas e repique de escola de samba ao final!

Novo e absoluto silêncio. Será que exagerei?, ponderou ele. Talvez um pouquinho. Mas o que não se faz pelos filhos. Mesmo que sejam dos outros. Foi quando lembrou do pagamento.

_Como o senhor já deu uma entradinha, posso até pra faturar o restante em trinta dias.

_ Vinte tá de bom tamanho. Odeio ficar devendo – para acrescentar em seguida_ E os convites?

_ Tudo certo. Vão pra gráfica essa semana.

_Dá pra acrescentar mais unzinho? Sr. M. C. Pacheco e família. Rua Toneleiros, 45 A. Copacabana. Rio de Janeiro. O CEP eu não sei. Agora, dê sossego, sim? E pare de ligar.

_ Quanto a isso, pode ficar despreocupado. O senhor ajudou demais. Qualquer coisa é só…

_Tá. Tá. Tá. Fique com Deus, minha filha _ desligaram, mas ele continuou ali. Quietinho. Matutando ao lado do aparelho.

_Manoel? Quem era? _ a voz veio da cozinha.

_ Engano. Mas diz uma coisa, ainda tem aquele seu vestido longo preto?

Ela apontou no corredor. Tenho, sim. Por quê? , perguntou curiosa.

_Melhor ver se serve. Algo me diz que seremos convidados prum festão – e completou, na maior cara de pau_ Se tem algo que não faço é desfeita, viu? Eu, hein. Longe de mim…

O festão

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