Meninos e Meninas

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A reprodução a seguir evoca fatos reais.
Por se tratar da transcrição de trechos extraídos da conversa entre dois bebês enquanto passeavam, fez-se necessário o uso de sofisticadas técnicas de neurolinguística. Além de estudos bioquímicos e astrofísicos conduzidos por agentes americanos independentes e de grande idoneidade.
Trata-se de uma história verídica. Trazida a público pela primeira vez.
E que começou com ele, tentando estabelecer algum contato com ela. Mas, por mais que fizesse e a despeito de todo seu esforço, o que se ouviu foi um murundum monossilábico. Algo que ia do dáaaaaaa ao buuuuuu, sem nenhum sentido ou intenção definida. Ao mesmo tempo que balançava freneticamente um livrinho de banheira que trazia consigo, numa tentativa desesperada de aplacar ao menos um, Oi. E aí, beleza?
Falou comigo?, respondeu ela, que era puro desdém. Desfilando sua recém-trocada fralda dia e noite. Muito mais absorvente, ultra-anatômica e salpicada com estrelas cintilantes que brilhavam no escuro.
Ele insistiu. Agora com palminhas. Depositando, enfim, seu precioso livreto entre as coxas gorduchas e cheias de dobrinhas dela.
_Nem vem que não tem, rapá. Acha que não te saquei? O começo é sempre assim. São coloridos, cheio de figuras e bons de lamber e apertar. Depois vão abarrotando de letrinhas e, antes que se perceba, O v-o-v-ô v-i-u a u-v-a. Daí pro ditado é um pulo. E o que virá na sequência? Verbos? Conjugações? Pronomes? Mas não, mesmo – e continuou, empurrando o livrinho longe _ Sem essa de mestrado, nem tese no exterior. Europa, fofinho, só pra desfilar. Ou comprar bolsa. Eu quero é sombra e água fresca. Uma Evian, de preferência. Com raspas de limão e cranberry para acompanhar…
Ele ensaiou um biquinho. Confuso que estava com a profusão verborrágica da vizinha de carrinho. E que não calava mais.
_Estude você! Que se mate numa baia 3×4, emendando plantão em hora extra. Acumulando bônus, previdências e dividendos. Ou como pretende bancar minhas sessões de detox e mimos frugais de pobre-menina-rica? Botox é caro. Laser de CO2 fracionado é caro. Lipo é cara. Anote aí: eu sou cara. Sem falar nos carros, viagens, festas. Fazer o quê? Nasci assim. Simplinha…
Foi quando ele tentou alcançar um ursinho. E um tapão certeiro coroou sua mãozinha.

_Sem distrações – ela diz _ Foco é bom e eu gosto – acrescentando nova ordem em seguida_ Tó. Brinca de Lego. Ouvi falar que é muito bom pra coordenação. Vai precisar de destreza se quiser trabalhar com mecatrônica nuclear aplicada ou radiocirurgia multidisciplinar teleguiada. Mas nem esquente, que isso depois eu escolho. Por enquanto, disfarce. Isso. Faz bolhinha e cara de bobo. Assim está ótimo_ baixou ainda mais o tom de voz _ E lembre-se: não me procure. Volto a fazer contato em vinte anos, oito meses e dezessete dias – profetizou _ Eu te acho. Quando estiver pronto.

Não sei, você. Mas pra ele, deu. Abriu o maior bocão. Berrando a plenos pulmões.

As mães acudiram correndo.
_Não sei o que tem esse menino. Chora por tudo_ e acrescentou, pesarosa _ Olhe ela, que graça. Que fofa. Só podia ser menina. Tão centrada. Boazinha. Parece que já nascem sabendo tudo. Do mundo, dos homens, da vida…
A outra mãe deu de ombros.

_ Imagine. Impressão sua. Nessa fase, menina ou menino, tanto faz. No fundo, é tudo a mesma coisa.
Vai nessa, viu? Vai nessa…

Meninos e meninas

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